16 janeiro 2018

"Quilimanjaro"

A palavra de hoje na Enciclopédia Ilustrada é Quilimanjaro.

Daqui a bocado vou lá falar do filme francês "Les Neiges du Kilimandjaro", um filme extraordário sobre justiça, boas intenções, boa consciência.




Mas, para já, um pequeno momento recreativo nos difíceis trabalhos enciclopédicos:




Quando eu era miúda, na nossa casa ouvia-se muito a palavra #Quilimanjaro. Era a minha mãe a queixar-se do tamanho do aparador na sala da jantar, que ocupava demasiado espaço e quase impedia as pessoas de se sentarem à mesa. "Este Quilimanjaro aqui!", lamentava-se ela, enquanto obrigava toda a gente a levantar-se daquele lado da mesa para poder encostar as cadeiras para poder abrir as portas.
Nós casquinávamos. Durante muitos anos, quilimanjaro foi para nós um móvel que atafulhava uma sala, com portas que escondiam um espaço atafulhado de chocolates e sortido comprados em Espanha.
(Que eu ia roubando em quantidades homeopáticas para vender a uma amiguinha da escola, que me pagava com as moedas da colecção do pai, com as quais eu comprava livros da colecção Formiguinha, mas isso agora são outras histórias.)
(Também há aquela história dos palitos de plástico colorido que roubámos na mercearia do senhor Paulo, e que - é tão triste ser criança! - arrumámos na gaveta do aparador, juntamente com os guardanapos e os outros palitos. Maldito domingo aquele em que o meu pai abriu a gaveta, viu, perguntou "que palitos são estes?!" e me mandou ir devolvê-los ao senhor Paulo.)
(O nosso quilimanjaro era um móvel muito atreito ao mundo do crime.)


15 janeiro 2018

o amor no tempo dos neandertais







Tudo no texto assinado por Catherine Deneuve, Catherine Millet e mais 98 mulheres me deixa estupefacta:
- A transformação de um movimento de revolta contra hábitos do patriarcado, revolta essa que peca por tardia, em mais um exemplo de deriva tresloucada do "politicamente correcto", apelando subliminarmente às mulheres para que sejam comedidas e não levantem ondas desagradáveis;
- A omissão da questão fundamental da assimetria de poderes (a propósito: o comentário que tantas vezes se ouve por aí - segundo o qual estas mulheres terão aproveitado o interesse masculino para subir na carreira "à custa das outras", e agora, "que não precisam", é que se lembram de acusar os homens - é mais uma prova evidente da aceitação social dessa assimetria de poder e das respectivas regras do jogo);
- O apelo à liberdade interior da mulher, que lhe permitirá ignorar que levou um apalpão no metro ou ultrapassar uma violação sem traumas
(troque-se a mulher por um homem, e o apalpão por, por exemplo, o hipotético hábito de lhes pisar um pé - sou só eu que tenho vontade de rir ao pensar nos conselhos que estas senhoras dariam aos homens revoltados com o hábito generalizado de os pisar deliberadamente na rua ou nos transportes públicos? "Não te encerres no papel de presa / não te sintas traumatizado por causa de uma pisadela deliberada no metro, mesmo se isso for considerado delito / encara isso como expressão de uma miséria de vida do outro, faz de conta que não aconteceu /
essas pisadelas frequentes não atingem a tua dignidade e não devem fazer-te sentir como vítima perpétua / não te reduzas ao teu corpo / a tua liberdade interior é inviolável, e essa liberdade implica riscos e responsabilidades."
Quem se lembraria de argumentar assim para tentar convencer os homens a aceitar uma situação de agressão deliberada?) 


Mas o que mais me surpreende é a imagem do masculino que anda na cabeça daquelas mulheres:
"Nous défendons une liberté d'importuner, indispensable à la liberté sexuelle. Nous sommes aujourd’hui suffisamment averties pour admettre que la pulsion sexuelle est par nature offensive et sauvage, mais nous sommes aussi suffisamment clairvoyantes pour ne pas confondre drague maladroite et agression sexuelle."

"Liberdade de importunar, e uma pulsão sexual que é por natureza ofensiva e selvagem." Repito: "ofensiva e selvagem"!
Devo viver numa bolha estranha, porque nunca vi nenhum comportamento de importunação, ofensa e selvajaria ter resultados positivos.
A sério que, em termos de estratégia de acasalamento, os homens são neandertais?
Contem-me tudo, abram-me os olhos. É que os homens que eu conheço - educados e sensíveis, capazes de dar sinais do que querem sem serem invasivos, capazes de aceitar um "não" como resposta - pelos vistos são todos aberrações da natureza, uns autênticos desnaturados...




o que sobrou do Natal


Anedota que sobrou do Natal passado: isto é o presépio ideal da AfD - sem judeus, nem árabes, nem africanos.

Também sobraram estas imagens dos copos de vinho a escorrer depois de lavados.
Flores de cristal como memória de longas conversas à mesa.



(Sim: andei a arrumar fotografias.)


14 janeiro 2018

primeiro dia do ano ortodoxo


No dia 1 de Janeiro de 2017 levei o Fox cedinho ao lago, e vim de lá com fotografias incríveis de um inverno gelado.
Hoje, primeiro dia do ano para os ortodoxos, levei o Fox ao lago, e descobri que afinal o inverno ainda não desistiu de dar um ar da sua graça. Às tantas fui precipitada quando lamentei o dinheiro que paguei ao serviço de remoção de neve, por este inverno ainda não termos tido nada digno desse nome.

Em suma: aprende a patinar, companheiro / aprende a patinar, companheiro / que o gelo se está a levantar / que o gelo se está a levantar / que o inverno vai passar por aqui / etc.


   


 


12 janeiro 2018

o melhor do meu dia


Ontem fui a uma advogada com a minha amiga que perdeu o companheiro antes do Natal. Ela tinha umas perguntas a fazer sobre questões de herança, mas a advogada disse-lhe "minha senhora, não tem direito a nada. Não era casada, não tinha papéis, não há testamento - é como se se tivessem separado. Para todos os efeitos, o seu companheiro abandonou-a".

Já vi elefantes em lojas de porcelana a ter um comportamento mais sensível, mas não se perdeu tudo: à entrada do prédio havia dois espelhos frente a frente, fazendo aquele túnel infinito que desde sempre me fascinou, de modo que nos pusemos a tirar fotografias. Até que um vizinho chegou, e nós disfarçámos e pusemo-nos a andar para fora dali. Queríamos ir conversar num café, mas como não conhecíamos a zona, tocámos à campainha de um escritório para pedir indicações. Do lado de lá ouvimos alguém a tentar abrir a porta, a chave a rodar na fechadura uma e outra vez, nova tentativa. Até que finalmente a porta abriu, e mostrou dois homens com ar simpático. "Desculpe!", disse eu, "não pensava que ia dar tanto trabalho! De facto, só queria perguntar se nos pode indicar um café agradável aqui na zona". Riram, entreolharam-se, consultaram-se, e lá nos disseram em que direcção devíamos ir.

Depois do café fui a correr para o concerto na Filarmonia, com o maestro Sir Antonio Pappano e a soprano Véronique Gens. Desta vez (não perguntem como é que isto me acontece, que também não sei) tinha bilhete no bloco A. Mas quando o maestro entrou, tive pena de não estar nos bancos de pau por trás da orquestra, a vê-lo de frente. Um espectáculo! Vejam aqui o trailer do concerto, observem bem o maestro.

Quando estava a regressar a casa, a minha amiga telefonou-me oferecendo-se para me vir buscar à estação de comboio. Depois convidou-me para um último copo de vinho na casa dela. A verdade é que eu estava a morrer de cansaço, mas depois de um dia tão traumático não a podia deixar a beber sozinha. Falámos mais uma vez daquilo que nos deixa a todos chocados: a naturalidade com que acreditamos que a morte não é uma possibilidade, com que adiamos decisões importantes como escrever um testamento ou mudar um nome de beneficiário de seguro de vida. Depois falámos no boião de vidro que lhe dei na passagem de ano, com a promessa de um ano bom. Ela ainda não tinha escrito nada, disse-me, porque por estes dias quase nada de bom lhe acontece.

Quando me fui embora, vi pela janela que a minha amiga estava a escrever numa das folhinhas do boião. E isso foi o melhor que me aconteceu esta semana: no dia em que uma advogada insensível lhe disse frases devastadoras, a minha amiga conseguiu encontrar algo de positivo para escrever e iniciar uma colecção de momentos bons do ano.

11 janeiro 2018

entretanto, na Filarmonia de Hamburgo...



E o making of:



Quando a Filarmonia de Hamburgo foi inaugurada, a televisão passou em horário nobre um documentário sobre os operários que a fizeram: o condutor da escavadora que esvaziou o edifício histórico com todo o cuidado para não rebentar as paredes exteriores, os técnicos que montaram o telhado ondulado, a pequena empresa da Boémia que produziu os candeeiros em técnica puramente artesanal e os electricistas que os instalaram, as várias empresas europeias que uniram esforços para fazer as esculturas de vidro para as janelas.
E agora fazem um vídeo em que põem uma violinista a fazer música com os limpa-vidros.
Em termos de "trabalhos diferentes, dignidade igual", está tudo dito. Gosto muito desta faceta da sociedade alemã.

Esta Filarmonia, cuja construção demorou sete anos mais do que o previsto, e que trouxe à cidade de Hamburgo custos dez vezes mais elevados que os planeados, faz hoje um ano - e já é impossível pensar a cidade de Hamburgo sem esse marco cultural.

Daniel Kaiser resume o fenómeno: "A Elphi é mais do que apenas uma nova sala de música clássica. Tornou-se um símbolo sonante, com impacto internacional. A Filarmonia reposicionou Hamburgo de forma completamente nova no mapa mundial. Os hamburgueses sentem-se orgulhosos quando um New York Times elogia a sua cidade. O turismo tem um boom, a cultura ganha. A Filarmonia é adrenalina para Hamburgo, e mostra a força que a cultura tem. A cultura não é apenas a cereja no topo do bolo, não é um luxo. A cultura pode ser um motor, capaz de mudar uma cidade."

10 janeiro 2018

immortal Bach, de Nystedt



O meu coro está a preparar esta peça de Nystedt, que cria um efeito de longuíssimo eco a partir de uma composição de Bach. Ontem fizemos a primeira experiência de cantar com dois coros, com um dos grupos a cantar a mesma partitura dando o dobro da duração a cada tempo, e foi uma experiência incrível.

No filme que se segue é explicado como é que a peça funciona. A lógica é simples - mas a suavidade e a capacidade de respirar de forma imperceptível, isso aí, já é com cada um.
(No dia do concerto, que Nystedt nos ajude! :) )



09 janeiro 2018

filhos das estrelas


"Filho das estrelas", Sternenkind, é o nome que em alemão se dá aos bebés que morrem antes ou pouco depois do parto. Na aldeia da minha avó, no Minho, dizia-se "anjinho". No cemitério havia duas longas filas de campas de anjinhos, e os meus olhos infantis pressentiam naqueles canteiros a tristeza das famílias, mas também o sinal de que a aldeia tinha sido tocada por uma inocência celestial.

Na Alemanha, os "anjinhos" são "filhos das estrelas", um nome que evita a crueza de designações como "aborto" e "nado-morto", e ajuda os pais a viver com a dor da perda. Também a nível da legislação se nota a mudança de mentalidade. O corpo, que até há poucos anos era atirado para o lixo do hospital ou entregue a empresas farmacêuticas para fazer experiências, tem agora outro estatuto, com direito a um registo especial e a funeral, mesmo que o período de gestação tenha sido muito breve. Para muitos pais, trata-se de uma conquista importante para o seu processo de luto.

Perante esta mudança de mentalidade, não admira que em 2013 tenha surgido também uma iniciativa que oferece aos pais a possibilidade de registar fotograficamente o filho que nasceu morto ou morreu pouco depois do parto.
Kai Gebel, autor do projecto, escreve aos pais :
A iniciativa já conta com mais 600 fotógrafos que põem o seu tempo gratuitamente à vossa disposição. A ideia de, numa situação tão difícil, haver um fotógrafo a tirar fotografias ao vosso filho pode parecer-vos estranha. No entanto, recomendamos que aceitem esta oferta. A intenção do fotógrafo é dar-vos apoio. Não precisam de ver imediatamente as fotografias, mas poderão vê-las quando sentirem que chegou o momento. Serão uma ajuda no vosso processo de luto. Ficarão para sempre como recordação tangível do vosso filho tão amado.

Como tantas vezes, um acto de generosidade nunca vem só. Soube desta iniciativa por um artigo onde se contava a história de uma destas fotógrafas, que após pedir no twitter alguns objectos para compor as fotografias (gorros para prematuros, cobertores de bebé, peluches) se viu envolvida numa tal onda de boa vontade que até duas objectivas caras lhe foram enviadas, juntamente com inúmeros adereços para as fotos e presentes para os irmãos do bebé, com o carteiro a comentar que se sentia muito feliz por ser parte desse movimento.


08 janeiro 2018

de boas intenções...

Esta manhã sonhei com o Chico Buarque (mas não conto, que depois vocês também iam querer) e o Joachim fez a sua boa acção do dia: deixou-me continuar a dormir.
Muito simpático.

Quando acordei, bem-disposta e predisposta à generosidade, resolvi fazer também uma boa acção. Disse aos meus turistas do airbnb que não precisavam de sair da casa às 10, como é das regras, porque não tenho ninguém a chegar hoje. Podiam deixar as malas, ir passear, e vir buscá-las antes de se irem embora de Berlim.
Eles responderam: "Isso é muito simpático, mas nós reservamos o apartamento até depois de amanhã."

Ooooops.
Tenho de começar a comprar café português, que o alemão está a funcionar cada vez pior...


07 janeiro 2018

na passagem de ano

Depois do Natal, os nossos amigos do Lago Constança deram-se conta de que não tinham planeado nada para a passagem de ano, e resolveram vir festejar connosco.

Fomos com eles a um dos concertos de fim de ano dos Filarmónicos, com Simon Rattle e Joyce DiDonato. Já tínhamos ficado em êxtase no ensaio geral, mas o concerto foi ainda melhor. E tivemos o gosto de ouvir Simon Rattle anunciar a "White House Cantata" com o comentário "pudesse esta canção ouvir-se mais vezes naquela casa..." e de o ver a sorrir aos músicos fazendo um sinal de nos cortar a garganta a todos, porque aplaudimos a sua frase com demasiado entusiasmo.
(A saudade que este homem vai cá deixar...)



Take care of this house
Keep it from harm
If bandits break in sound the alarm
Care for this house
Shine it by hand
And keep it so clean
The glow can be seen all over the land.

Be careful at night,
Check all the doors,
If someone makes off with a dream
The dream will be yours.
Take care of this house
Be always on call
For this house is the home of us all.

Da Filarmonia seguimos para o Babylon, um dos grandes cinemas da Berlim dos anos vinte, para ver um dos filmes mudos que passam todos os sábados à meia-noite com música ao vivo. No cinema há um órgão de 1929, e há também uma pianista russa que se apaixonou por ele e vem todos os sábados improvisar a música para os filmes mudos. 
A minha esperança era que o filme do dia fosse "Berlim: a sinfonia da grande cidade" - mas era um Charlie Chaplin, "City Lights". E como Chaplin fez questão de que este filme não passasse nunca com música ao vivo, perdemos a sessão de cinema com o famoso último órgão de cinema em uso na Alemanha. Os nossos amigos terão de voltar a Berlim para ouvir a pianista russa no cinema Babylon, coitados.
Mesmo assim, gostámos imenso: a expressividade do rosto de Chaplin naquela tela enorme, as críticas sociais que o filme transporta, o grafismo dos intertítulos e a frase num deles:


A passagem de ano propriamente dita foi um sossego. Na nossa casa, com um jantar bastante simples, e o jogo Vertellis.
Este jogo, que vem da Holanda, propõe perguntas para passar o ano em revista, do género:
- qual foi o melhor elogio que te fizeram este ano?
- o que te surpreendeu em especial?
- diz três coisas que te deram muita energia
- qual foi a melhor decisão que tomaste?
- daquilo que conseguiste atingir este ano, o que te dá mais orgulho?
- a quem gostarias de agradecer algo em especial?
- de que é que te sentes mais grato?

Entrega-se uma carta a uma pessoa, que começa por decidir se quer responder àquela questão ou se prefere outra. Os demais participantes comentam a resposta, dão achegas, e também podem responder eles próprios a essa pergunta. A seguir, entrega-se nova carta à pessoa ao lado, e a conversa continua.

A pergunta "qual foi o melhor elogio que te fizeram este ano?" calhou à nossa amiga que perdera o marido uns dias antes. Ela leu, abriu um sorriso que se foi tornando cada vez mais doce, e finalmente disse que não queria responder. Apressámo-nos a dar-lhe uma pergunta alternativa.


À meia-noite a cidade rebentou em fogo-de-artifício, e nós fomos para o terraço cumprir também a nossa parte. Todos menos a Christina, que se retirou para um quarto tentando acalmar o Fox, que tremia e arquejava em grande aflição. Ao ver o sofrimento do cãozinho, perguntei-me como se sentirão os animais selvagens que partilham a cidade connosco.
Depois regressámos ao jogo, e à sobremesa.
Na segunda volta, as perguntas eram dirigidas a cada um, mas a resposta tinha de ser adivinhada por outros. Do género:
- Pensa quais são as tuas duas melhores qualidades, mas não as reveles. Diz quais são as duas melhores qualidades da pessoa que está três lugares à tua direita.
- Pensa em que te queres focar mais no próximo ano, mas não o reveles. Diz em que é que a pessoa dois lugares à tua esquerda se quer focar mais no próximo ano.

Não conseguimos chegar à terceira volta, com perguntas sobre o que queremos do ano recém-chegado. Talvez no próximo ano, se começarmos mais cedo. Tipo: logo a seguir ao Natal...
Vou guardar o jogo cuidadosamente. Promete outras passagens de ano igualmente boas.  



(Se querem saber tudo: 200 g de suspiro, 750 g de framboesas, 600 ml de natas batidas até ficarem bastante espessas. Partir o suspiro em bocados pequenos e cobrir com parte deles o fundo de uma taça de vidro, deitar framboesas congeladas por cima, deitar as natas batidas por cima, repetir. Guardar durante 4 horas no frigorífico antes de servir.)


06 janeiro 2018

o Natal é para as ocasiões


O nosso 2017 terminou com um choque enorme: um amigo nosso - o vizinho que tantas vezes estava a grelhar no jardim quando eu passava com o Fox, e no regresso me convidava para provar a carne assada  (para quem participou no passeio ao Douro que fizemos em Julho: o que fazia anos nesse dia e ao almoço pagou as bebidas de todos) - morreu inesperadamente durante o sono, dois dias antes do Natal. Tinha 56 anos.

"Em momentos destes, tudo passa para segundo plano", comentou o vizinho da casa em frente quando me deu a notícia, junto à ambulância que já não serviu para nada. Arranjámos maneira de fazer com que a mulher do nosso amigo viesse para Berlim sem desconfiar do que se tinha passado, recebemo-la e amparámos como pudemos a sua queda no abismo. Chorámos juntos. Fiz sopa para todos. Trouxe a família para a nossa casa, recebemos os amigos que iam chegando.

O nosso Natal, que estava a ser preparado com outra família, e prometia ser um tempo de calma e conforto, alargou-se para acolher a mulher e os irmãos em luto. Os vizinhos uniram esforços para ajudar e animar na medida do possível os familiares profundamente fragilizados.

Senti-me grata por todas as vezes em que conseguimos fazê-los rir e esquecer momentaneamente a dor: a noite de consoada, quando o vizinho da frente entrou pela nossa casa adentro com todos os parentes e uma bela garrafa de cognac; a leitura do Wladimir Kaminer, que fez as duas irmãs rir a bandeiras despregadas, e a Russendisko da qual as duas saíram a dançar abraçadas; o casal a contar histórias mirabolantes da vida louca que faziam antes de se terem conhecido e ganhado juízo; o vizinho que deixou duas rosas num jarro com água à entrada do jardim; as salsichas que grelhámos e comemos de pé, em homenagem ao amigo que partiu.
Esses, e tantos outros momentos em que alguém teve a coragem de visitar o sofrimento desta família, afirmaram o verdadeiro espírito de Natal.

Se o Natal não se fez para estas ocasiões, não sei para que poderá ter sido feito.


Uns dias mais tarde, num pequeno-almoço em família, a conversa acabou por desembocar na eventualidade de também nós morrermos assim inesperadamente. Respondemos aos nossos filhos com confiança: estes dias acrescentaram nomes aos que já tínhamos para lhes dar, e mostraram-lhes que ninguém é deixado sozinho com a sua dor e os seus problemas.

Sim, tivemos um bom Natal.
Permitiu-nos perceber que não se trata de "fazer aos outros como quero que me façam a mim", é maior que isso, é sobre o nosso mundo. O mundo é aquilo que nós fazemos nele.

Deixo aqui algumas imagens do Natal que também coube neste Natal.



   








04 janeiro 2018

"desejo"

A palavra mágica de ontem na Enciclopédia Ilustrada era "desejo".
Voltando a usar o blogue para arquivar o que aparece e desaparece na voragem do facebook, aqui deixo alguns "posts roubados":

1.


Björk, aqui com a participação de Antony Hegarty, em "The dull flame of desire" (Eu vejo a entorpecida chama do #desejo), a partir da tradução para inglês de um poema de Fyodor Tyutchev, o mesmo que é declamado na cena final do filme Stalker, de Andrei Tarkovsky.
Parece que Dostoyevski considerava Tyutchev o melhor poeta russo e era capaz de ter razão.

I love your eyes, my dear
Their splendid sparkling fire
When suddenly you raise them so
To cast a swift embracing glance
Like lightning flashing in the sky
But there's a charm that is greater still
When my love's eyes are lowered
When all is fired by passion's kiss
And through the downcast lashes
I see the dull flame of desire
--/--/--/--/--
Eu amo os teus olhos, meu amor
A sua esplêndida, radiante chama
Quando por um instante tu os levantas
Ligeiramente para lançar um olhar aconchegante
Como um relâmpago cortando o céu
Mas há um encanto maior ainda
Quando os olhos do meu amor estão baixos
No calor de um beijo apaixonado…
E por entre os cílios baixos
Eu vejo a entorpecida chama do desejo


2.


É uma tetralogia de peso: Mozart, Angelin Preljocaj, Aurélie Dupont e Manuel Legris.
A propósito de #desejo. A propósito de quase tudo __________

[E agora acrescento eu: reparem no beijo, a partir de 5:15.
Melhor dizendo: reparem em tudo.]


3.
Do Desejo

“Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.”

 
Hilda Hilst, Do Desejo, 1992



4.
Teorias do desejo, há muitas. Lacaniana me confesso: o maior prazer está no desejo em si, e não na sua satisfação (que é o fim do desejo). Sendo embora verdade que se possa incluir entre os objetos de desejo tanto uns bolinhos de bacalhau quanto um belo casaco, a palavra remete para a sexualidade em primeiro lugar – portanto, por uma vez sem exemplo, esqueço aqui os bolos de bacalhau.
Muitas formas tem o desejo. Uma das minhas favoritas é Desire, personagem da série “The Sandman” (1989-1999), novela gráfica nascida da imaginação delirante de Neil Gaiman. Desire é uma reformulação de Eros, de quem mantém o caráter caprichoso, a força anárquica e socialmente subversiva que é necessário domesticar. Mas é possível domesticar o caos? Desire é o mais cruel dos 7 irmãos Endless, tendo um poder medonho sobre todos, humanos e imortais: apenas Death não o teme, e apenas Despair, sua irmã gémea, o ama.
Somos todos criaturas suas.



5.
A AMBIVALÊNCIA DO DESEJO
Embora o desejo pareça uma pulsão clara de aproximação entre dois seres, a primeira coisa que ressalta é a sua complexidade. Drummond de Andrade, grande poeta brasileiro, no seu poema "Destruição", faz esta afirmação espantosa: "Dois amantes que são? Dois inimigos".
E, se, de acordo com a definição de S.B. Levine, o desejo pressupõe uma boa saúde física, psíquica e relacional, a sua verdadeira natureza é a ambivalência.
Ambivalência que se traduz nestas antíteses poéticas (lembremo-nos de “O amor é um contentamento descontente”, de Camões, e de Petrarca:"Ó morte viva! Ó mal delicioso!"), e ainda na semântica da aproximação amorosa (a conquista, o cerco, a luta, o desafio, a rendição); em suma, uma relação ritualizada e não-consciente de luta pela conquista do outro, o que pressupõe "entrar" no seu território, isto é, na sua intimidade.
Esta vulnerabilidade gera tensões, medos, respostas agressivas, desejo de afastamento. Por mais que o outro seja desejado, é também temido. Os amantes, depois da fase de deslumbramento, ou seja, de permissividade territorial, facilmente entram em conflito e agridem - por silêncios, palavras, ausências - e afastam-se simbolicamente. Perante a ameaça da perda o desejo aumenta e os amantes reaproximam-se.


6.
A FALÁCIA DO DESEJO
Vivemos aparentemente numa sociedade hipersexualizada, mas uma boa parte disso pertence ao mundo da ficção: refiro-me ao cinema e tv e à publicidade. Na verdade, em 2008, os valores ingleses para a prevalência das perturbações do desejo sexual hipoativo eram de 32% das mulheres e 15% dos homens. (what a world!!!)
Sendo um problema comum aos dois sexos, as suas determinantes são diferentes: enquanto que nos homens existe uma relação clara entre níveis de testosterona e desejo, nas mulheres, as relações entre doseamentos hormonais e desejo são apenas uma parte da questão, e de modo nenhum a mais importante.
Foi Helen Singer Kaplan (foto) que, com a sua obra "The new sex therapy" de 1974 primeiro chamou a atenção para as perturbações do desejo em Sexologia, considerando-o como uma das fases da resposta sexual humana.
Combinando vários saberes que até então estavam demasiado compartimentados, (visto que era simultaneamente psiquiatra, psicóloga e psicanalista), ela rompeu com o anterior modelo de Masters e Johnson, cuja visão exclusivamente comportamental, se bem que eficaz, era limitada, visto que não tomava em consideração o desejo.

Comentário a este post: Algures nos meados dos anos 80 assisti a uma preleção com o Francisco Allen Gomes e nunca mais esqueci de ele dizer "à mesa do café é uma por dia se não forem mais... com sorte até pode ser uma por mês"

03 janeiro 2018

Carta aberta ao senhor Ministro da Saúde

(trouxe do facebook, do mural da Helena Ferro de Gouveia)

Exmo Senhor Ministro da Saúde Dr. Adalberto Campos Fernandes,

1. Na quarta-feira dia 27.12.17 dirigi-me às urgências do Hospital de Santa Maria com uma dor precordial muito forte. Uma vez que tenho pericardite recidiva ( duas em 2016 e um episódio em 2017) devidamente diagnosticada e que me mantiveram internada quer em Portugal, quer na Alemanha, conheço bem os sintomas.
Chegada à urgência não havia nem maca, nem uma cadeira de rodas para me sentar. Valeu-me o voluntarismo de um agente da PSP, que conhecendo o Hospital, me conseguiu desencantar uma cadeira.
A fila para a inscrição na urgência era extensa e nenhuma observação, monitorização ou canalização de veia foi feita porque faltava o "acto administrativo".
Não sendo eu profissional de saúde acredito que um "acto administrativo" (ou a falta do mesmo) não seja impeditivo de prática clínica. Ou vivemos numa república kafkiana?
Foi-me atribuída uma pulseira amarela na triagem e fiquei na sala de espera, sem que nenhum tipo de medicação para a dor me fosse administrado.
Fui observada por uma médica de medicina interna que prescreveu análises sanguíneas, um ECG e um raio x ao coração. Entre a minha entrada em Santa Maria e a realização de todos os exames ( entrada antes das 21 horas) passaram-se mais de cinco horas.

2. A médica, apesar de eu ter contado todo o meu historial e ter explicado que passo boa parte do ano em países em desenvolvimento e junto das populações e os mais carentes dos carentes como os refugiados, desvalorizou esse factor, e não prescreveu uma ecografia cardíaca que usualmente permite fazer o diagnóstico da pericardite quando os outros meios complementares de diagnóstico não a detectam.
Aproveito aqui para questionar porque razão os hospitais portugueses não estão ligados em rede permitindo ao clínico saber a que procedimentos o paciente já foi submetido e a sua história clínica? Em vez de eu contar, não teria sido mais fácil ver todos os exames e o meu processo no Hospital Central de Vila Real onde estive internada em Novembro de 2016 ?
Em resumo: com uma queixa cardíaca, não fui
vista por um clínico da especialidade e fui enviada para casa com Aspergic e um "se se sentir mal volte amanhã".

3. No dia 28.12.17 como a dor não havia passado dirigi-me às urgências do Hospital da Luz onde após uma bateria de exames - que paguei à cabeça - foi-me diagnosticada pericardite e ordenado internamento.
A pergunta que coloco neste ponto é: se o paciente não tiver capacidade económica para pagar exames complementares de diagnóstico sujeita-se à sorte ou ao azar ? Isto é responsável ( já nem falo em ético) ?

4. A minha epopeia hospitalar não acaba aqui. O Hospital da Luz não tinha vagas para internamento. Pediram-me que pagasse os exames e a urgência e que procurasse pelo meu pé um quarto de hospital. Nem um contacto telefónico foi feito.
A pergunta neste ponto, para o senhor ministro e os administradores do privado é: o doente é um cliente, que paga salários e sustenta todo o sistema, ou é um mero factor de lucro ou prejuízo? Onde andam as boas práticas ou mesmo a decência ?

5. Continuando, com o meu carro privado, dirigi-me a CUF Descobertas. Lá quando me apresentei na recepção mostrando todos os exames feitos no Hospital da Luz, respondem-me "tem que passar pela triagem" , mas não respondem à pergunta "tem vaga para internamento". Ou seja estavam dispostos a cobrar a taxa de urgência a uma doente com o diagnóstico feito.
Percebendo que eu já não estava para brincadeiras o enfermeiro que me atendeu e que foi sincero: "não temos quartos" e "não vou iniciar o processo". Cancelou a urgência e não não me foi debitado a taxa. Telefonar para outro Hospital ? Falso alarme.

6. Da CUF Descobertas dirigi-me para o Hospital dos Lusíadas, não sem antes ter telefonado e perguntado se havia vagas, "não lhe podemos dar essa informação pelo telefone". Neste hospital fiquei internada de 28.12.17 a 1.01.18 devido à pericardite.
A minha pergunta é: se não tivesse 550 euros para pagar à cabeça como caução pelo internamento - entre exames e outras despesas foram cerca de mil euros em 24 horas - onde ficaria ? O que me aconteceria? Se nas deslocações entre hospitais me acontecesse algo quem se responsabilizaria ?

7. Durante o tempo que esteve nos Lusíadas - onde a enfermagem, médicos de medicina interna e demais pessoal, foram de uma extrema simpatia e dedicação - não fui vista por um cardiologista, mas a "concertação" foi feita entre os médicos de medicina interna e alguém da cardiologia que eu nunca vi. Só ontem, em consulta nos Lusíadas, já depois de ter alta, fui vista por uma referência da cardiologia nacional.
As perguntas neste ponto são: não há médicos especialistas nos hospitais privados em época festiva ? O que explica que uma doente cardíaca tenha de se deslocar da sua cama, em cadeira de rodas, até um consultório para que lhe sejam observados os ouvidos com um otoscópio preso à parede, porque os demais instrumentos ficam fechados aos fins de semana e feriados?
Esta exposição segue via postal acompanhada de todos os exames e demais documentação.
Mais do que uma resposta do senhor ministro, agradeceria que houvesse uma reflexão séria sobre os problemas graves que enfermam o sistema de saúde.

Com os melhores cumprimentos e votos de um Saudável 2018.

Helena Ferro de Gouveia

Adenda para quem não é da capital. Santa Maria é um hospital público, os restantes são privados.

os meus hóspedes airbnb são melhores que os vossos


Os dois jovens casais gregos que estiveram cá uns dias, em Novembro, mandaram-me de presente de Natal dois postais (sim, cada casal escreveu o seu próprio) e guloseimas para mim e para o Fox.
E renovaram o convite: quando eu quiser ir à Grécia, fico nas casas deles. De graça.

(Estava na dúvida sobre o que fazer aos brincos que esqueceram aqui, e agora não tenho hipótese: vou ter mesmo de os devolver. A generosidade natalícia tem o seu quê de pedagógico, é só o que vos digo.)


31 dezembro 2017

um ano bom


A quem passa por aqui deixo um truque simples para terem um ano excelente:
treinar no quotidiano um olhar de gratidão.

(Por estes dias, tenho pensado muito na imprevisibilidade da vida. Cada dia é um presente.)

(Hoje à noite vou oferecer estes frascos com a promessa de um ano bom.
Já avisei: "vocês só têm de fazer uma coisinha de nada todas as semanas, e garanto que vão ter um ano excelente."
Hehehe, tenho poderes especiais!)

29 dezembro 2017

morte lenta

Se é mesmo verdade que na hora da morte o filme da nossa vida passa por nós, espero ter - daqui a muitíssimos anos, claro - uma morte tão lenta que dê tempo para ouvir a Joyce DiDonato a cantar canções de Richard Strauss.
Como cantou hoje. Sublime.

O concerto de ano novo da Filarmónica de Berlim vai passar na Arte no domingo, 31.12., a partir das 17:40 (hora portuguesa), e na radio RBB (Kulturradio, livestream) passa a partir das 16:25. 






24 dezembro 2017

Natal, Natal, Natal de luz




"Jul, jul, strålande jul" é uma canção de Natal de Gustav Nordqvist, com letra de Edvard Evers.
Composta em 1921, a música pousa delicadamente uma aura de sossego e paz sobre as chagas de uma Europa torturada pelos horrores da Primeira Guerra Mundial.

Para todos os que passam por aqui, deixo votos de um Natal de luz suavemente derramada sobre a vida inteira: fazendo brilhar o seu melhor, aliviando inquietações e dores.

Penso especialmente naqueles que viram a sua vida devastada pelos incêndios - que este Natal lhes possa trazer alguma da força necessária para continuar.

Penso no meu vizinho Uwe, o melhor dos vizinhos da minha rua, que transformou este bocadinho de Berlim numa aldeia de amigos, e morreu repentinamente durante o sono dois dias antes do Natal. Penso na mulher dele e nos irmãos, que por estes dias têm sido amparados por uma extraordinária rede de amizade e de solidariedade dos vizinhos: recebem de volta o bem que o Uwe espalhava entre nós.  


[E agora vou-me desgraçar de vez, e traduzir para português a partir da tradução automática de sueco para várias línguas. Depois desta ousadia, nem a alma do Speedy Gonzalez se me vai aproveitar. ]


Natal, Natal, Natal de luz
brilha sobre as florestas brancas,
as coroas celestes de luzes cintinlantes,
os arcos claros da casa de Deus,
e o salmo que repete
o eterno desejo de luz e de paz!

Natal, Natal, Natal de luz
brilha sobre as florestas brancas!

Vem, vem, e diz Natal!
Pousa as tuas asas brancas
sobre o sangue e o alarme dos combates,
sobre tudo o que rouba segurança à humanidade,
sobre as famílias que sossegam enfim,
sobre os dias de juventude que virão!

Vem, vem, diz Natal,
envolve-nos com as tuas asas brancas.


20 dezembro 2017

je suis autocarro

 (foto)

Ontem, no centro de Berlim, foram lembradas as doze vítimas mortais do atentado no mercado de Natal de 19.12.2016. Foi inaugurado um memorial - uma fractura que se estende pelo passeio, ao longo de 17 metros, preenchida com um metal dourado. Às 20:02, a hora a que o atentado teve lugar, os sinos da Gedächtniskirche tocaram durante doze minutos. No Parlamento berlinense, o presidente de Berlim pediu aos feridos e aos familiares das vítimas desculpa pelos erros cometidos pelo Estado, que não soube proteger os cidadãos.

Tudo isto é digno e está muito certo.

Mas ninguém sente necessidade de falar das doze pessoas que morreram faz hoje 14 anos num acidente de autocarro na fronteira entre a Bélgica e a Alemanha, ou nas dezoito que morreram em Julho deste ano noutro acidente de autocarro na auto-estrada entre Berlim e Munique. Em Junho de 2018 não vai haver qualquer cerimónia para lembrar essas 18 pessoas.
Ninguém fala das estradas portuguesas onde todos os anos morrem mais de quatrocentas pessoas, ou nas alemãs, onde anualmente morrem mais de três mil. Num ano só as estradas portuguesas fazem mais vítimas que o terrorismo islâmico fez até agora em toda a Europa, e as estradas alemãs fazem mais vítimas que o terrorismo islâmico fez até agora em todo o Ocidente, 11 de setembro incluído - mas nenhum político vê necessidade de pedir desculpa no parlamento pelo facto de o Estado não saber proteger os cidadãos. 

A onda de comoção que percorre as redes sociais quando há um ataque terrorista contra o ocidente não se estende a outras tragédias. Há quem diga que as ondas "je suis" se justificam porque as cidades atacadas são parte da nossa vida. No entanto, apesar de todos andarmos de automóvel e transportes públicos, quando há tragédias na estrada o facebook não se enche de fotos de perfil marcadas com "je suis autocarro" ou "je suis acidente rodoviário".

Porquê esta diferença?

Porque é que não reagimos em relação a um condutor que matou pessoas por conduzir embriagado com o mesmo repúdio que temos para com um tresloucado filho de muçulmanos?
Porque é que muitos dos que exigem ao Estado que feche as fronteiras a "essa gente", para garantir a nossa segurança, não se lembram de exigir que o Estado tire a carta de condução a quem, por incúria, tenha provocado um acidente com vítimas mortais ou feridos graves?

Porque é que nos habituámos aos irresponsáveis e aos incompetentes na estrada (quantos de vocês já telefonaram à polícia a denunciar um condutor cujo comportamento põe em risco a vida de terceiros?) e exigimos do Estado segurança absoluta contra o terrorismo?

E porque é que insistimos em mostrar abertamente o choque e o medo perante um acto de terrorismo, mesmo sabendo que estamos a fazer o jogo das organizações terroristas, que colhem nas nossas reacções o material de que precisam para seduzir e angariar terroristas para o ataque seguinte?


oração para os tempos que me correm

Pai nosso que estás no céu
(...)
o iorgurte magro de cada dia nos dai hoje
(...)
e não nos deixeis cair em tentação
mas livrai-nos das embalagens de Marabou de 250 g que comprei outro dia na IKEA
e das caixas de Fudge Mrs Tilly's que me estão aqui a fazer negaças.
Amén.


(mas quem é que se lembra de fazer dieta uma semana antes do Natal?!)




19 dezembro 2017

Vila Feliz




Glüklitz é o nome que Wladimir Kaminer inventou para a aldeia perto de Berlim onde tem a casa com jardim que comprou depois de ter sido expulso do seu talhão de agricultura urbana devido a, como ele diz com ar de gozo, "vegetação espontânea". Poder-se-ia traduzir "Glüklitz" para "Vila Feliz", ou algo do género, e no domingo passado percebi porquê.
Começa com o caminho: cheguei tardíssimo, porque estava encantada com o pôr-do-sol sobre a planície alagada, e a cada 100 metros parava o carro para tirar fotografias.

Quase a entrar na aldeia, olhei para a esquerda e vi três pássaros enormes, que não sabia identificar. Parei o carro e fotografei-os, muito satisfeita por não terem fugido logo. Depois olhei para a esquerda, e vi que havia milhares de pássaros iguais naquele campo - não se vê bem na fotografia mas, podem crer, eram milhares.



Quando finalmente cheguei a "Vila Feliz", perguntaram-me: "Viste os grous? Dizem que são mais de setenta mil! Estão a habituar-se a ficar aqui no inverno, porque já não é tão frio como antigamente. O problema é que se um ano destes vier um inverno realmente severo, já não haverá grou nenhum que tenha aprendido o caminho para o sul com os grous mais antigos. Vão morrer todos!"

 


Em "Vila Feliz", no Advento, os vizinhos encontram-se nos quintais uns dos outros, de volta de uma fogueira com uma caneca de vinho quente na mão.
Este ano estavam a queixar-se que o calendário lhes roubou a possibilidade de mais um encontro, porque o último fim-de-semana de Advento coincide com o Natal. Ao fim de umas horas na conversa com eles, de volta da fogueira (e do meu chá, porque tinha de levar o carro de volta para casa), bem lhes percebi a tristeza: há algo de único nestes encontros tão simples e amáveis. E é em momentos assim que entrevejo o que havia de realmente positivo na RDA: laços humanos que não precisavam de grande logística, consumo e ostentação, para se afirmarem e reforçarem.

Um pouco mais tarde, à mesa da cozinha, um casal amigo dos Kaminer começou a contar:

"Nós os dois éramos tratadores de animais num zoológico. Um dia, tivemos de fazer uma cesariana a uma leoa, e ela rejeitou as crias. Três leoazinhas. O director do zoológico perguntou-me se a minha mulher podia criá-las, já que estava em casa em licença de maternidade. Ela aceitou, e eu levei as três bichinhas num cesto de vime com tampa para o nosso apartamento, que era num prédio de dez andares. Fizemos-lhes umas papas com leite e aveia, que elas comeram avidamente. Mas não saía nada pelo outro lado. Ao fim de três dias, deixaram de comer. Arranjámos um tubo ligado a uma seringa, e metemos-lhes parafina pelo lado de baixo do tubo digestivo, não sei se me está a entender. Depois fomos dormir, mas às quatro da manhã acordámos com um cheiro estranho. Olhámos para o cesto, e vimos uma massa castanha a sair por todos os interstícios. Abrimos a tampa, e demos com um espectáculo miserável: as leoas também estavam castanhas. Só se lhes viam os olhinhos.
Metemo-las na banheira - no nosso prédio já havia esses luxos de banheira e água quente - e usámos um champô para bebé que uns amigos da Alemanha Ocidental nos tinham oferecido. Ficaram um espectáculo! O pelo muito encaracoladinho, pareciam caniches.
Passados uns dias o guarda do prédio tocou-nos à campainha. Disse que os vizinhos se tinham queixado de ouvir barulhos esquisitos na nossa casa, e queria saber o que se passava. Eu disse-lhe "conto-te a ti, mas não contas a mais ninguém, ouviste?" - e mostrei-lhe as leoas pequeninas. No dia seguinte tínhamos uma fila interminável de vizinhos à porta, que também queriam ver. "Eu só disse a uma pessoa!", defendeu-se o guarda.
A nossa filha tinha um ano, estava na fase de gatinhar. Não dizia nem mamã nem papá, mas seguia as leoas para todo o lado, e quando uma delas rugia a nossa filha rugia igual.
Tivemos de as mandar embora ao fim de onze semanas, quando as garras começaram a crescer."

Em suma: no domingo passado jantei com os pais da Mogli da RDA.
E lembrei-me de novo de uma pergunta que um entrevistador da RTP fez ao Kaminer, em Lisboa: "o senhor inventa as histórias surreais que escreve?"
Não. Não inventa. Limita-se a organizar uma fogueira e um vinho quente para os vizinhos, e a ouvir as histórias que estes contam.

O que me lembra mais uma história divertida que ouvi a outro amigo dos Kaminer: "na aldeia da minha irmã havia uma empresa de escavadoras que foi à falência. Alguém comprou o parque industrial da empresa e fez nele um parque de diversões. Por um euro, os homens que em criança sonhavam ser condutores de escavadora podem realizar o seu sonho. Vão para lá aos fins-de-semana, levam a família, e andam felizes como putos pequenos a escolher a escavadora que vão conduzir e a areia que vão mover de um lado para o outro, sob o olhar aprovador da sua mulher."

17 dezembro 2017

oratório de Natal num 3 assoalhadas


Um oratório de Natal memorável: a nossa maestrina estava em cima de uma pilha de livros para poder ser vista por todos, os trompetistas estavam no corredor, por trás do coro, na orquestra e no coro havia miúdos com menos de 10 anos, alguns dos cantores tinham bebés no canguru (ou lá como é que se chama agora o saco de carregar os pequeninos junto ao peito). Começou bem, mas tivemos de recomeçar porque ao fim de alguns minutos um pequenito foi a gatinhar pelo meio dos cantores e quando chegou à zona dos músicos atirou a estante de uma flautista ao chão, e depois não fez mais nenhuma asneira porque os pais (um trompetista, uma soprano) se revezaram a pegar nele ao colo, conforme a partitura permitia.

Às vezes parávamos para discutir, "fazemos também o 19?" "não, vamos já para o 21!" "oh, o 19 não custa nada, vamos lá!" e a maestrina punha ordem na anarquia.

No fim - vá, alguns até pelo meio, cof cof - comemos as bolachinhas caseiras que é tradição fazer no Advento, e quase todos tinham trazido. Depois houve sopas, e muita conversa.

Uma pessoa está ali toda aplicada a fazer playback, sente-se um bocado embaraçada ao dar-se conta da segurança com que todos cantam, vê que uma das contralto trouxe o bebé de dois meses para o meio do coro, e começa a pensar que o oratório de Bach corre no sangue desta gente. Provavelmente aprenderam ao colo dos pais - a partitura serve apenas para as revisões da matéria dada.







como se fosse Natal


16 dezembro 2017

já me podiam dar o prémio Nobel da economia

Passei a manhã a alavancar a economia berlinense. Se não é com isto que a cidade reduz o seu défice, não sei com que será.


isto hoje está mau para piadinhas



A palavra mágica de hoje na Enciclopédia Ilustrada começa por V, e aqui a engraçadinha põe-se a pensar que palavra há-de propor, e decide-se por:

"16 de Dezembro de 2017: A palavra mágica para hoje é VAN.
Hoje é o aniversário de Ludwig van Beethoven. ;) "

O problema é que a palavra "van" não existe nos dicionários portugueses. Usa-se no Brasil, mas não em Portugal. A culpa é dos opositores ao Acordo Ortográfico, por causa deles perdi esta oportunidade de fazer uma gracinha.

(Calma, eu sei que o Acordo Ortográfico não é um Acordo Semântico, calma lá - estava a tentar ser engraçada. Hoje está mesmo mau para piadinhas...)

(Mas está muito bom para fake news. Aviso já que a wikipedia não sabe quando é que Beethoven faz anos, só sabe que foi baptizado a 17 de Dezembro.)




15 dezembro 2017

era para ser um post sobre o programa para este fim-de-semana



Ia para contar que, só para me desforrar da famosa insularidade de que sou vítima (desta vez é a Tinta-da-China  a fazer uma feira do livro com bolos e tudo este fim-de-semana em Lisboa, e eu aqui tão à desamão), para me desforrar, dizia, amanhã vou a casa de uma amiga que juntou um grupinho para interpretar na casa dela o Oratório de Natal de Bach, e no domingo vou à festa de advento que os Kaminer estão a organizar na aldeia que é cenário de um dos livros mais recentes do Wladimir, "Deste lado do Éden". É a aldeia onde eles compraram uma quinta junto a um lago, onde se orgulham de serem proprietários da vinha mais setentrional do mundo (é o que vem no livro, eu cá não invento nada), e onde os vizinhos lhe pediram que fizesse uma russendisko e lhe mandaram mensagem a dizer: "tudo a postos, já pusemos 100 cadeiras na sala". Ando há que anos com vontade de conhecer esses vizinhos - melhor dizendo: a parte não romanceada deles -, e vai ser no domingo.

Antes disso tenho o Oratório de Bach no sábado à tarde, e pensei tirar o sábado de manhã para fazer umas comprinhas e aprender a minha parte. O mail que recebi há duas semanas falava em cinco peças, imaginei que seriam apenas os velhos corais de Lutero que qualquer criança conhece, só que com a cara lavada e bem penteados por Bach, enfim, aquelas coisas que se cantam sozinhas. Mas hoje, só para ser previdente, resolvi começar a olhar para a partitura. Depois fui ouvir a primeira peça que tenho de aprender. Essa que está no vídeo. Quer-me parecer que vou passar a noite inteira a estudar um playback jeitoso.


Era para ser um post sobre o que vou fazer este fim-de-semana, mas depois reparei nas imagens iniciais do vídeo, feito na Frauenkirche, em Dresden. Que igreja barroca fantástica! Ninguém diria que tem apenas dez anos. Foi praticamente toda destruída no bombardeamento de Dresden. E as ruínas só se salvaram porque havia um professor universitário que ia pedindo sucessivamente adiamentos na remoção do entulho porque tinha alunos a fazer doutoramentos sobre a estática daquela igreja, dizia ele. Deve ter sido a estática mais bem estudada do mundo, mas a verdade é que quando se deu a reunificação as ruínas ainda lá estavam, e arranjou-se dinheiro para refazer o resto em todo o seu esplendor.

E depois reparei num comentário a esse vídeo:

Johannes Günther: "Ouço uma obra-prima como esta com sentimentos contraditórios. Por um lado, alegra-me o coração e a alma. Por outro lado, amaldiçoo o nosso tempo, porque tenho a sensação de que a formação sobre a História e a Cultura alemãs se limitam ao Holocausto. Quantos dos alemães com menos de 30 anos (como é o meu caso) têm uma ideia da cultura do seu próprio povo?"

Algumas pessoas reagiram:

The Wizard of Potsdam: "Que disparate... A literatura que é dada nas escolas só em dois semestres inclui o Holocausto. Em Brandeburgo e Berlim, por exemplo, os temas do final do secundário são Sturm und Drang,  Naturalismo, Comunicação e Media. A segunda Guerra Mundial não é tema. E mesmo que fosse: claro que este espantoso trabalho de Bach pertence à história cultural alemã. Mas não se pode ficar só com o que "faz bem ao coração e à alma". O Holocausto também é parte da história cultural alemã. O nacional-socialismo não surgiu de repente - peng! - do nada. Tem uma longa história e raízes profundas na cultura alemã (o romantismo nacional, a narrativa do eterno judeu em Wagner, por exemplo). Também temos de nos confrontar com isso."

Christiane Behnke: "A escola nunca pôde dar tudo, nem agora nem há 40 anos. Mas dá pistas que cada um pode seguir. É uma sorte cruzar-se com Bach. Na vida há sempre sentimentos contraditórios. Se gostamos do que estamos a ouvir, o melhor é ignorar o outro lado. (...) Infelizmente, a Alemanha nazi conseguiu ser o primeiro país a vez exterminar pessoas de forma sistemática. Isso vai ficar para sempre, e é bom que fique. Porque não pode voltar a acontecer. Em vez de se lamentar (não vale a pena, não vamos conseguir desfazer o que foi feito), mais vale tentar aprender com isso. (...)"

Johannes Günther: "Nas entrelinhas, vejo claramente que és boa pessoa. Mas a frase "isso vai ficar para sempre, e é bom que fique" leva-me a acreditar que, como tantos outros, aceitaste o que te doutrinaram na escola, e isso entristece-me. Podes ter a certeza que não conhecemos a verdadeira história, e por isso não podemos aprender com ela. "

The Wizard of Potsdam: "Obrigado, Johannes. Eu só queria saborear Bach. Mas agora, mal abro este vídeo, sinto-me enojado por saber que nem sequer vídeos de música como esta estão a salvo de pessoas que se servem de tudo para espalhar o negacionismo do Holocausto. A sua falta de compaixão dá vómitos. Bem pode poupar frases arrogantes como o "vejo que és boa pessoa" que dirigiu à Frau Behnke.

Christiane Behnke: Beeeem, o melhor é não entrar na questão da culpa. (...) Penso que é globalmente importante que um povo não esqueça o que fez, tanto o bem como o mal. Como qualquer pessoa, aliás. Caso contrário, continua a andar nos seus sapatos infantis, e não consegue ir muito longe. Irrita-me ver que nos outros países ninguém fala dos transportes de judeus e dos pogroms contra eles, embora as milícias nacionais tenham trabalhado com muito empenho. A Alemanha teve de reconhecer o que os nazis fizeram. E com base nisso foi possível desenvolver uma Democracia como não se encontra em muitos outros países. Com erros, mas bastante OK. Portanto, em vez de ficares triste, saboreia Bach. E não sejas tão espevitado.
Talvez eu seja boa pessoa, não sei e não me interessa. Mas dei-me ao trabalho de estudar muito sobre História e Cultura, para saber de que estou a falar.  Por isso não me passa pela cabeça ter sentimentos contraditórios quando ouço a música belíssima da minha cultura."

Eric Mustardman: "Também tenho sentimentos contraditórios quando vejo que alguém aproveita uma peça tão bela como o Oratório de Natal de Bach para espalhar negacionismo do Holocausto. Uma parte de mim está na pacífica disposição da quadra natalícia e quer perdoar este discurso de ódio, e outra parte de mim sente a necessidade urgente de fazer queixa às autoridades (...).
Já agora: "os alemães" devem a "um judeu" a obra de Bach não ter caído no esquecimento. Foi o compositor Felix Mendelson Bartholdy (e neto do grande filósofo iluminista Moses Mendelson) que lutou para fazer ouvir peças de Bach e Haendel quando já há muito se deixara de falar deles. Mendelson Bartholdy cirou em Leipzig o primeiro Conservatório da Alemanha e criou standards, quer como compositor quer como maestro, que ainda hoje são válidos."

O outro responde que não está a defender negacionismo nenhum, e se já não se pode dar uma opinião...

Anda um J.S. Bach a suar as estopinhas para compor um Oratório que celebra o Deus que se faz criança entre nós, e é isto...


dez dias antes do Natal

Quando uma pessoa pensa que já sabe tudo sobre etiqueta na Alemanha, e deseja "bom Natal" a um funcionário de uma empresa com quem não vai voltar a falar nas próximas semanas, e ele - para mais em Weimar, terra onde não há muitos cristãos! - responde: "bom Advento é o que lhe desejo", catrapum!

Fiquei com o ego na cave.

o vídeo de gatinhos para arrumar com todos os vídeos de gatinhos


Aqui está the ultimate vídeo de gatinhos.
(isto é tão bom que estava capaz de ir comprar todos os cremes de La Roche-Posay, só para lhes agradecer)


14 dezembro 2017

o direito ao sarampo

Da newsletter do Spiegel, hoje:

"Para mim, um dos maiores enigmas deste tempo é o de pessoas inteligentes que se recusam a vacinar os filhos. Sangrar doentes saiu de moda por algum motivo, e o ferreiro já não trabalha como dentista há algum tempo. Mas é justamente nos bairros urbanos cujos moradores se têm em conta de muito progressistas que se espalhou uma recusa estranhamente esotérica de vacinar as crianças. (...) O pediatra Herrmann Josef Kahl apresenta uma proposta que me parece sensata: "quem quiser frequentar uma instituição estatal de ensino - como creche ou escola - tem de ter as vacinas completas".
Nesse caso, o direito humano de apanhar sarampo passa a existir apenas nas escolas privadas."

Em entrevista, o pediatra mencionado conta que perde imenso tempo a explicar aos pais a necessidade das vacinas, e raramente os consegue convencer. Sei de outra médica, mais pragmática, que já não perde tempo com essas discussões estéreis. Limita-se a dizer aos pais: "não precisam de vacinar todos os vossos filhos - vacinem apenas aqueles que não querem perder".

Mas o discurso da liberdade de escolha vai longe e encontra terreno fértil entre os oportunistas que preferem poupar os seus filhos, contando com a alta taxa de vacinação na sociedade que garante a segurança de todos. Às vezes dá-me vontade de curto-circuitar a lógica destes pais, enviando toda a família para duas semanas de férias gratuitas numa ilha onde todas essas doenças existam.
(Não me levem a sério, é só uma provocação.)

A proposta deste pediatra, no sentido de tornar as vacinas obrigatórias para quem frequenta os estabelecimentos de ensino público, pode ter uma consequência muito interessante: como muitas escolas privadas seguirão com certeza a mesma regra (porque todos sabem que a única maneira de conter essas doenças é ter uma população vacinada a quase 100%), acabará por haver escolas privadas frequentadas apenas por não vacinados. Ou seja: as crianças passam o dia num ambiente semelhante ao da tal ilha que sugeri como provocação. Com a diferença de que ninguém é obrigado a ir para lá - cada família pode decidir livremente se a sua criança frequenta uma escola onde todos são vacinados, ou uma escola onde as vacinas não são obrigatórias.

Estou em crer que em meia dúzia de anos as pessoas perdiam todas as dúvidas sobre a importância de vacinar os filhos.


ADENDA:




Sandy Hook



Sandy Hook já foi há cinco anos?!
Muita coisa mudou entretanto. Mas a facilidade com que qualquer maluco pode provocar tragédias, essa, continua desgraçadamente igual.

Enquanto procurava fotos para este post deparei-me com uma série de páginas de teorias da conspiração. Alguém andou a espalhar na internet a ideia de que esta tragédia não aconteceu, e que as imagens que vimos não passavam de uma encenação criada para ajudar o governo federal a levar avante os seus planos de controlar mais a licença de porte de armas, de "tirar as armas aos americanos". Em tribunal, os acusados de mentira e difamação reclamavam o seu direito de livre expressão. O antigo "vale tudo, excepto tirar olhos" deu lugar a "vale tudo, especialmente confundir olhos".  

 



ADENDA
[é que partilho estas coisas no facebook, e depois o pessoal completa-me lá os posts, e depois tenho de vir para aqui adendar - isto de estar no blogger e no facebook ao mesmo tempo é uma dor de cabeça...]



Armed and dangerous this Xmas/ It's an oxymoron I know how it sounds/But you won't pry my fingers from it/My precious 2nd Amendment guarantees a clip that holds 100 rounds.


ADENDA II
[e não garanto que seja a última]



"This song was written a little less than 5 years ago, in the days following Sandy Hook. It revisits us year after year on this day, and too often in between."

Mandolin Orange perform "Blue Ruin" from their 2015 album 'Such Jubilee'
Emily Frantz - guitar, vocals
Andrew Marlin - guitar, vocals
Recorded in Beehive Productions Studio in Saranac Lake, NY May, 2015

13 dezembro 2017

vai à lua ver se chove



Já não há respeitinho (1)

Ontem, o noticiário ARD da noite falou do projecto trumpiano de ir à lua e mais além. A notícia veio já no final do programa, e a passagem para a seguinte foi feita assim: "Pode ser que este projecto seja um grande passo para Trump, mas para as pessoas de quem vamos falar a seguir não é mais que uma saída para ir comprar cigarros no quiosque da esquina. O novo Star Wars..."



Já não há respeitinho (2)

Wladimir Kaminer, sobre o mesmo tema:

Trump acendeu uma centelha de esperança: "Vamos conquistar o espaço, os nossos melhores homens voarão de novo até à lua." A verdade é que qualquer criança sabe quem é o melhor homem da América, o mais bonito, o mais corajoso e o mais esperto. No entanto, não tenho grandes esperanças de que ele resolva hoje mesmo pentear o seu toucado de esquilo morto e zarpar para a Lua a toda a velocidade.


["esquilo morto"! nunca mais vou conseguir olhar para o Trump da mesma maneira ]



12 dezembro 2017

bela por fora e por dentro


 
Três concertos em dois dias: Maria João Pires, Late Night com Simon Rattle ao piano, e voltar no dia seguinte aonde fui feliz, para ouvir o mesmo concerto da pianista.

Simon Rattle toca piano com a mesma energia que põe na direcção da orquestra. O seu pequeno concerto teve graça, mas convenhamos que é preciso coragem (ou inconsciência) para se sentar ao piano pouco depois de a Maria João Pires ter estado naquela sala.
Tocou a sonata em sol menor de Debussy com Daishin Kashimoto, e o Quatuor pour la fin du temps, uma peça que Olivier Messiaen escreveu num campo de prisioneiros de guerra dos alemães. A sorte de Messiaen (e nossa) foi ter-se deparado com um tal de Franzpeter Goebels como comandante do campo. Este Goebels, um músico chamado a cumprir serviço militar na guerra de Hitler, deu a Messiaen os meios necessários para compor a sua peça, e permitiu que a estreia mundial se realizasse no campo, perante 400 prisioneiros. E depois ainda há quem diga que a Arte não serve para nada...
Não sei como seria a qualidade dos instrumentistas que também eram prisioneiros no campo, nesse desgraçado ano de 1941. Em 2017, ter um Wenzel Fuchs a tocar o solo de clarinete em "Abismo dos pássaros" foi assombroso.
Aliás: de todos os músicos daquele quarteto, o pianista era o menos brilhante...   



 

Este foi o momento, no fim do concerto de domingo, em que Maria João Pires ofereceu ao maestro uma rosa do seu ramo. A sala inteira desatou a rir porque ela não conseguia soltar o pé da flor, e acabou a oferecer apenas uma rosa a modos que decepada.
Os dois concertos foram excelentes - como seria de esperar de Maria João Pires e de Herbert Blomstedt. Assisti ao de domingo com sentimentos contraditórios: a felicidade de estar ali naquele momento, e a tristeza de saber que provavelmente não volto a ver nenhum deles em palco. 

Mas guardo comigo a graça dela a propor os temas à orquestra, a elegância das frases, o equilíbrio entre expressão e contenção. E do maestro Blomstedt, esse extraordinário homem que aos noventa anos ainda consegue transmitir a energia da música com todas as fibras do seu corpo, guardo a dinâmica "molto dansabile" que deu à versão original da terceira sinfonia de Bruckner.

 


então que tempo tem feito em Berlim?

Se é para dizer numa palavra: não sei.
Primeiro parecia que íamos directos do outono para a primavera. Fiz uma selfie num lago cheio de sol (fiz muitas), enquanto o Fox esperava pacientemente.





Depois nevou um bocadinho.



Depois  a neve derreteu.



Depois houve uma espécie de granizo durante a noite, mas o dia amanheceu sem nuvens.


Depois passou por nós uma cadelinha, e aqueceu outra vez. A bem dizer: para o Fox, foi primavera.
(Ficou tão feliz que até parecia uma zebra.)

 


Depois caiu um nevão valente...




 
...que transformou o meu bairro num cenário de filme.




Esperto foi o casal que saiu para dar uma voltinha de esqui de fundo às onze da noite, na minha rua:



Espertos, sim. Porque no dia seguinte voltou a primavera.
(Sem cadelinha.)