18 agosto 2017

uma lição sobre bagatelização dos nazis

Traduzo muito rapidamente um artigo que Sascha Lobo publicou no spiegel online a propósito da conferência de imprensa dada por Trump após a tragédia de Charlottesville. Sascha Lobo mostra o paralelismo entre o discurso de Trump e certas estratégias de comunicação na internet, e escolhe não perder uma única oportunidade de chamar neonazis aos Alt Right - o que é a sua maneira de lutar contra as estratégias de semear a dúvida quanto aos verdadeiros valores e objectivos daquele grupo.
Como disse, é uma tradução rápida (estou de férias, e com ipad e internet periclitantes). Se tiverem dúvidas sobre alguma frase, digam-me - pode ser culpa da tradução.


Após o atentado de Charlottesville, Trump serviu-se dos truques habituais de comunicação dos neonazis. Na conferência de imprensa, o presidente usou um estilo que já tem vindo a ser usado há muito na internet.

"Havia muito boa gente, dos dois lados."
É preciso pôr em contexto esta citação da conferência de imprensa de Donald Trump sobre a manifestação "unite the right" em Charlottesville. Para isso, neste caso basta uma imagem:

(foto: Andy Campbell)

Esta foto é suficiente pelo que representa: os inúmeros braços erguidos na saudação nazi, as palavras de ordem e as canções anti-semitas, a violência aberta e carregada de ódio como foi o ataque às pessoas da contra-manifestação. Aconteceu sob o lema "unite the right", que resume o comportamento do grupo: não se tratou de casos individuais, mas de uma base comum.
Para isto, não se encontra palavra mais adequada que "neonazis".

Muito antes das eleições nos EUA, encontrei um tweet que na altura ainda tinha piada: "Trump é como se a caixa de comentários da internet tomasse a figura de um homem e concorresse às eleições". Entretanto, já nos demos conta do alcance desta comparação.

Na conferência de imprensa sobre os acontecimentos de Charlottesville, Trump utilizou exactamente os mesmos modelos de comunicação com que os "Alt Right" (um eufemismo para extrema direita e neonazis) operam há muito na internet. Por trás disso escondem-se naturalmente truques antiquíssimos, desde a retórica da Grécia Antiga até à dialética erística de Schopenhauer. Mas seja por estratégia, seja por um mero impulso, Donald Trump transformou o tipo de comunicação online dos "Alt Right" numa conferência de imprensa.

"Chame-lhe o que quiser"

Começa com a resposta à pergunta sobre ter precisado de tanto tempo para fazer declarações sobre o ocorrido. Trump respondeu: "não esperei muito tempo [...] É preciso algum tempo para ter acesso aos factos. Os factos ainda não são conhecidos. [...] Honestamente: as pessoas ainda não conhecem todos os factos."

Dizer que ainda não se conhecem todos os factos é um modelo frequente nas discussões na internet. Desse modo fica subentendido que ainda não é possível fazer um julgamento definitivo. O que parece lógico, mas não é mais do que um truque, porque raramente se trata de conhecer "todos os factos". O que se trata é de conhecer o fundamental, e isso é identificável sem estar na posse de todos os detalhes.

É assim que um argumento da análise racional se transforma no seu contrário. Obviamente, é preciso ter factos para poder julgar. Mas se - perante a clareza de suásticas, saudações nazis e fantasias de exterminação dos judeus - Trump explica que os factos ainda não são todos conhecidos, isso significa que quer encobrir a realidade e semear a dúvida na opinião pública.

À pergunta "tratou-se de terrorismo?", Trump responde: "Pode chamar-lhe terrorismo, pode chamar-lhe assassinato, pode chamar-lhe como quiser. [...] Acabamos perante semântica jurídica. O condutor do carro é um assassino." Nesta curta passagem escondem-se duas mensagens que dão imenso jeito aos neonazis do "Alt Right". O "chame-lhe como quiser" é mais do que um comentário descuidado. Com estas palavras, em última análise transforma o atentado terrorista numa questão de definição pessoal.

Com uma oração subordinada, Trump abre a possibilidade para outras interpretações, que os neonazis já estão a espalhar na rede: ter-se-á tratado de um acto de resistência. Num momento Trump falava de incertezas jurídicas, para logo a seguir afirmar que o condutor é um "assassino". O motivo: um assassino costuma agir sozinho, enquanto actos terroristas contêm, por definição, uma culpa partilhada. Deste modo, Trump liberta os neonazis do "Alt Right", uma vez que isola o autor do atentado.
Esta estratégia observa-se frequentemente na rede, em comentadores da direita: por exemplo, quando, perante um atentado de origem fundamentalista islâmica, por sistema se alarga a culpa a todos os muçulmanos, ao mesmo tempo que o terrorismo de extrema direita é obra de pessoas  isoladas que de algum modo descarrilaram ou têm problemas mentais. É assim que um dos lados é sempre envolvido na culpa, e o outro lado nunca o é.

Um truque habitual da comunicação online

Perante a questão levantada por John McCain, relacionando a violência de Charlottesville àquilo a que chamou um "grupo Alt Right", Trump começa por apoucar o senador. A seguir, diz: "Defina o que é Alt Right". Trump sabe muito bem o que é "Alt Right", tanto mais que trouxe Steve Bannon - a figura mais poderosa do âmbito desse movimento neonazi - para a Casa Branca. Mas aqui faz de conta, como se tudo fosse difuso, como se faltasse clareza, como se fosse algo difícil de definir. Deste modo, torna mais difícil atacar o grupo, chamá-lo à responsabilidade. O que é mais um paralelo para a comunicação na rede levada a cabo pelos neonazis do "Alt Right".
De facto, também esse grupo cuida de manter a indefinição - embora nem sempre. Quando serve os seus propósitos, apresenta-se como uma estrutura de activistas bem organizada. Mas nos casos em que possam ter problemas, sublinham a falta de nitidez, a dificuldade da definição. Exactamente como Trump fez na conferência de imprensa.

Quando Trump se sente mais pressionado pela perguntas incisivas dos jornalistas sobre a violência dos neonazis do "Alt Right", diz: "E então os "Alt Left"? [...] Têm uma certa culpa? [...] Penso que têm." Recorre a um dos truques standard mais importantes da comunicação online, que os "Alt Right" usam muito: whataboutism.
Este neologismo americano pode traduzir-se por "então-e-ismo". A cada pergunta sobre actos, culpa, responsabilidade responde-se com outra: então, e o outro lado? As crianças com fome em África? Os morto da primeira guerra mundial? Desse modo, parece estarmos perante uma interpelação  dos princípios morais do adversário para o atacar, quando afinal se trata de uma manobra de diversão, para afastar para longe as questões incómodas, quando não há nenhum argumento válido para apresentar.

A menção ofensiva à "Alt Left" não foi um acaso. Trump constrói um opositor que não é a sociedade civil a protestar contra os neonazis, mas uma facção semelhante com um nome semelhante. Trump fala como se em Charlottesville o "Alt Right" não se tivesse erguido contra a população americana normal, antes se tivesse tratado de um confronto de activistas de direita contra activistas de esquerda. 
Os neonazis da "Alt Right" fazem algo semelhante, como se não estivessem a ser confrontados por cidadãos normais, mas por gente esquisita da esquerda radical. 
Numa anedota americana tão crua como amarga mostra-se bem o perigo deste deslocamento de referências:
- Neonazi: "Morte a todos os judeus!"
- Contramanifestante: "Não!"
- Observador: "Estamos então perante posições extremadas e antagónicas, agora temos de encontrar um compromisso."
  
A estratégia dos neonazis do "Alt Right" é acusar de extremismo quem repudia as suas próprias posições extremas e contrárias aos direitos humanos. E Trump, ao opor "Alt Left" a "Alt Right", dá força a esta narrativa. 

Trump afirma: "Num dos lados havia um grupo que era mau, e no outro lado havia um grupo que também era muito violento, e ninguém quer falar disso, mas eu vou falar agora." Na conferência de imprensa, Trump sublinha o carácter violento do "Alt Left", ao mesmo tempo que, de certo modo, protege os manifestantes de extrema direita: também terá havido entre eles "bad people", mas a maior parte "manifestava-se de modo inocente" e era "fine people". Este modelo de apresentação das questões é do mais maldoso que se pode encontrar, uma vez que, independentemente da violência que possa ter havido da parte dos contramanifestantes, houve um atentado em que um dos extremistas de direita matou uma mulher que estava a protestar pacificamente. 

Quando se silencia esta diferença fundamental entre os dois níveis, estamos perante uma bagatelização deliberada de um assassinato por motivos terroristas. E isso sem mencionar a formulação "ninguém quer falar disso, mas eu falo agora" - que já é a maneira clássica de a direita encenar uma quebra de tabu, a revelação de uma verdade que todos sabem e ninguém se atreve a mencionar. A seguir, aumenta ainda mais a sua repartição das culpas: "Havia um grupo de um lado, a que podem chamar "os esquerdistas" [...] que veio e atacou violentamente o outro grupo." Desse modo, Trump desloca a culpa para os contramanifestantes. 

Não se trata de autorização para se manifestar, mas de assassínio

"Do outro lado havia um grupo que vinha com a intenção de atacar, não tinha autorização para participar na manifestação, e era extremamente violento. [...] Havia muitas pessoas naquela manifestação [a "unite the right"] que vieram para se manifestar pacificamente e de forma muito legal. [...] Essas pessoas tinham autorização, as do outro grupo não tinham nenhuma autorização [...] um momento horrível para o nosso país."

A impressão que Trump quer criar aqui é algo que se encontra frequentemente nas discussões online: o respeito pelas regras do Estado de Direito com uma função de legitimização. Mas em momento algum a questão é a autorização para a manifestação - trata-se de um assassinato. 

Trump, no entanto, sublinha repetidamente que a manifestação dos neonazis estava conforme os preceitos legais, e a dos contramanifestantes não estava. Trump apresenta um grupo onde havia uma maioria de neonazis com tochas, saudações nazis, canções antisemitas e um assassínio de motivação terrorista como se fossem manifestantes "inteiramente dentro da legalidade" que, citando Trump, apenas se manifestavam "contra o desmantelamento de uma estátua que era muito, muito importante para eles". Quase nos sentimos tentados a ter pena dos pobres nazis e da estátua que significa tanto para eles.

O presidente dos Estados Unidos dissipou todas as dúvidas que pudesse haver sobre a sua atitude e deu-nos uma lição sobre como bagatelizar o nazismo. À qual, naturalmente, não podia faltar um final trumpiano: "A propósito, sou proprietário de uma das maiores quintas produtoras de vinho dos EUA. Fica em Charlottesville."


17 agosto 2017

resistir

Ia começar a traduzir um artigo muito bom sobre a banalização dos nazis no discurso do Trump quando soube do atentado em Barcelona. Primeiro falava-se apenas em "alguns feridos" ("uffff! desta vez escapámos com um olho negro", pensei) mas parece ter sido muito mais grave. Fala-se em treze mortos, treze imensas desgraças. E ainda o horror dos reféns no restaurante, o detalhe do outro carro envolvido que foi encontrado a 60 km de Barcelona. Só daqui a alguns dias saberemos com mais clareza o que se está a passar hoje na Catalunha.

A muitos milhares de quilómetros de distância, na costa ocidental dos EUA, penso no medo instalado na cidade, no choque e no luto que hoje se abateu sobre tantas pessoas dessa parte do mundo que me é tão próxima. Imagino o seu sofrimento, e o horror que entrou hoje nas suas vidas.

Mas não pensem os terroristas que vão ganhar, e conseguem mudar o meu rumo. Hoje ainda hei-de traduzir o texto que mostra como estamos a aceitar a bagatelização dos nazis. Não posso fazer nada para evitar os crimes do terrorismo islâmico, mas vou continuar a fazer a minha parte para que o ódio não se torne algo aceitável nas sociedades ocidentais. Não nos podemos tornar iguais a esses que nos atacam.


15 agosto 2017

deixaram-me entrar

Confesso que estava um bocado apreensiva com a passagem da fronteira para entrar nos EUA. O pessoal da Immigration nunca exagerou na simpatia, e as notícias que vão chegando à Europa sobre a facilidade com que se atropelam os direitos e a dignidade dos humanos afectam o optimismo e aquela confiança pueril que faz crer que tudo vai correr bem. Desta vez voei para os EUA temendo que alguma coisa corresse realmente mal, e não me deixassem entrar. De modo que andei numa de self-fulfilling prophecy, só fiz asneiras.

Começou em Amesterdão: o agente na entrada da zona dos aviões para os EUA queria saber dos motivos da minha viagem, e eu passei o tempo todo a dizer "nós". Como não tinha ar de princesa, ele quis saber quem era "nós", já que estava sozinha.
- Ah, claro! É o meu marido, que já está nos EUA, num congresso.
- E o que vão fazer? Onde vão estar?
- Férias. Vamos para Oregon, eclipse, avenue of giants, San Francisco. Depois o meu marido vai para o Burning Man...
- Burning Man? Queimam pessoas?! Isso parece perigoso.
- [ ai! já foste, Heleninha! Estás aqui estás a ser presa por suspeita de violência e terrorismo ] É um festival, em Nevada. Nunca ouviu falar? Setenta mil pessoas.
- Que tipo de pessoas vão para esse lugar? O seu marido é uma pessoa muito espiritual?
- [ ai! mete a marcha-atrás a duzentos à hora, Heleninha, faz-te de pateta ] Beeeem, nós somos católicos...
- Boa viagem, então.

Na máquina de controlo do passaporte correu tudo bem, mas a seguir tinha de ficar quieta para tirar uma fotografia. Olhei para o espelho à minha frente, e dei com o meu ar descomposto, de quem se tinha levantado às quatro da manhã, pareceu-me que o decote do vestido estava exagerado. Pensei que não queria a minha imagem naqueles preparos sabe-se lá nas mãos de que polícia, e tentei fechar o casaco - justamente no momento em que a câmara disparou. De modo que vai andar por aí uma foto minha a tentar compor pudicamente o decote.

Em Portland dei-me conta de que me tinha esquecido de trazer comigo o formulário ESTA. Engoli em seco, pensei que era agora que me iam mandar de volta para a Europa. O scanner do meu passaporte não funcionou. Depois funcionou, mas não conseguiu registar as minhas impressões digitais. Tentei uma segunda máquina. Também encravou. Pedi ajuda a um agente. Surpreendentemente correu tudo sem problemas e ele deu-me um impresso que tinha uma cruz enorme sobre o meu nome e restantes dados. Pensei "pronto, já foste! Regressas no mesmo avião, vais ver mais 4 filmes que te regalas..." Mas deixaram-me passar.

Na Alfândega perguntaram-me se trazia álcool comigo, e eu achei que me estava a perguntar se sou daquelas pessoas que andam com uma garrafa de aguardente no bolso do casaco - sim, só tinha dormido 3 horas depois de ter andado várias horas a segar relva praticamente de cócoras, e estava completamente atordoada - de modo que respondi "oh, nããããooooo!" como se ele tivesse feito uma insinuação ofensiva. Depois perguntou-me se trazia carne, "dairy" (oh, maldita pergunta para quem trazia um quilo de queijos austríacos e da Ilha), sementes, frutos, nozes...
- Não...
Olhou para mim com ainda mais atenção, levantou uma sobrancelha:
- Tem a certeza?
- Bem... tenho alguns queijos velhos em bloco.
- Ah, OK.
- E agora me lembro: há bocado, quando lhe respondi sobre o álcool, esqueci-me completamente que tenho duas garrafas de vinho português para oferecer aos meus amigos.
- OK. Boas férias, então.

Depois só tive de mostrar o passaporte mais meio milhão de vezes, e entrei nos EUA.

Tenho a sensação que os agentes foram mais simpáticos que habitualmente. Suspeito até que estavam a tentar contrabalançar as notícias que vamos recebendo dos EUA.


14 agosto 2017

e lá vou eu outra vez

Quem me mandou cortar a relva com uma gadanha mal ajustada, que me obrigava a trabalhar praticamente de cócoras? Com gadanhas assim, ninguém precisa de um personal trainer para desgraçar o corpinho. Vão ser nove longas horas de Amesterdão até Portland.
Mas depois começam as férias: crabbing, eclipse do sol, redwoods, San Francisco, Monterey, campismo em Big Sur. 
E por causa daquela vez em que estava nos fiordes, digamos assim, de Oregon, a comer os caranguejos maravilhosos que tínhamos pescado no dia, e dei comigo a desejar estar antes em Bruxelas a comer chocolates Godiva, vou prevenida: acabei de comprar uma bela caixinha de trufas. 

Até já. 

  

13 agosto 2017

a mulher da gadanha



Triste sina: antes das férias tento fazer tudo o que andei a procrastinar nos dias (e anos) anteriores. Uma correria.

Por exemplo: na véspera de sair para Portugal, em princípios de Julho, lembrei-me que tinha de plantar as dálias. Ou isso, ou podia dizer adeus à minha bela colecção de dálias de meter na terra no princípio do verão e tirar antes de chegar o gelo. Estava um calor insuportável, e eu sem tempo sequer para abrir buracos fundos, quanto mais para mergulhar os bolbos em água, esperar até ficarem bem empapados e plantar depois. De modo que passei uma ou duas horas a trabalhar no jardim num stress desesperado, convencida que não estava a plantar dálias - estava a enterrá-las.

Ora bem: Deus existe, podem crer. Mandou meia dúzia de dilúvios finais para Berlim, que empaparam os bolbos na terra o suficiente para a maioria deles sobreviverem.

Agora que estou prestes a sair para algumas semanas nos EUA, lembrei-me que a relva tem de ser cortada. Como já está demasiado grande, o cortador de relva já não dá conta do recado. Tenho andado de gadanha furiosa no jardim, convencida que não estou a cortar a relva - estou a decepá-la.

A ver como é que Deus se desenrasca desta vez...

12 agosto 2017

ele diz "lavagem ao cérebro", mas eu desconfio que há um ditado alemão mais apropriado para explicar o fenómeno



Tenho uma amiga - digamos que se chama Maria - que é uma mulher formidável, a todos os títulos.
Para a perfeição ser completa, falta-lhe apenas ter uma cara bonita.
Uma vez veio a uma festa nossa com um vestido mini que lhe ficava divinamente. Alguns rapazes viram-na de costas, e ficaram todos alvoroçados, olha-me aquela! olha-me aquela!
Segui o olhar deles no momento em que ela se estava a virar para nós, vi como murcharam:
- Oooooh, afinal é só a Maria...

"Só" a Maria. Uma mulher extraordinária, cujo único defeito é não ter uma cara belíssima, é "só" a Maria.

Um ditado alemão, com tradução livre do Speedy Gonzalez, diz (menores de 18 anos e ladies, é favor não lerem): quando o caralho sobe à cabeça, o cérebro fode-se.




11 agosto 2017

como se fosse Natal: voucher para uma semana no Digital Concert Hall




Ai, estes três!

💗 💗 💗


Ora bem, meus amigos: recebi um voucher para acesso gratuito durante uma semana ao Digital Concert Hall. Vou sorteá-lo entre os amigos (ou cuscas que por aí andam) que me disserem que estão interessados. Escrevam um comentário a este post, ou mensagem privada.

(Não, este post não é escrito em parceria com os Filarmónicos de Berlim. Antes fosse. Dizia-lhes logo: oh, pagamento por este serviço de publicidade?! Ora essa, não se incomodem com isso, é um prazer! Mas se me arranjassem um colchãozito no vão de umas escadas mais ou menos esquecidas no edifício...)

10 agosto 2017

como fazer uma tarte tatin de peras

Descascar cinco ou seis peras, e cortá-las em quartos. Aquecer o forno na chapa inferior a 200 graus.
Num tacho, aquecer 75 g de manteiga (pelo menos). Misturar 100 g de açúcar mascavado (ou menos). Deitar essa mistura no fundo de uma forma de tarte, pousar as peras em cima, em meter no forno para alourar a pera.

Como não fazer uma tarte tatin de peras: depois de meter a forma com as peras no forno, não ir procurar um botão para a camisa do marido, não tentar enfiar um fio demasiado grosso na agulha, não coser o botão, não dobrar a camisa e não ir espreitar o que se passa no facebook.







aqui em Berlim tem estado um verão impecável


Aqui em Berlim tem estado um verão impecável: bastam-me os dedos de uma mão para contar os dias em que tive de regar o jardim... :)



debates necessários

Não sei como é que o realizador - e meu amigo - Ricardo Espírito Santo faz, mas em poucos anos arranjou maneira de estar no centro de dois debates importantes sobre a ética na escolha das imagens a transmitir. E das duas vezes não deixou dúvidas sobre os valores que defende.

O primeiro foi o caso da morte do Féher. O Ricardo percebeu imediatamente que o jogador estava a morrer, e no mesmo instante tomou a decisão de não fazer imagens do seu rosto. Nunca será demais louvar esta atitude, por si própria e também por constituir um acto de resistência ao imperativo do negócio por meio da devassa e da criação de imagens que alimentam a mais sórdida curiosidade.

O segundo aconteceu por estes dias, também na transmissão de um jogo de futebol, com um plano que pretendia partir de um espectador e alargar para um geral, e infelizmente começou nos seios de uma adepta, abriu de modo a incluir o seu rosto e continuou para o restante público. O Ricardo pediu desculpa aos espectadores e à adepta, dizendo que foi totalmente involuntário, "um plano q envergonha valores fundamentais" e que "este plano não devia ter sido emitido, ponto final". Pediu também pessoalmente desculpa à adepta, que lhe revelou que o seu mural de facebook foi encerrado por ter sido alvo de comentários extremamente agressivos e sexistas, "dezenas de insultos, as coisas mais escabrosas q possam imaginar, coisas verdadeiramente horríveis q esta senhora nunca deveria ter vivido", "obscenidades relacionadas com o corpo". E conclui: "Quem se insurgiu com o meu pedido de desculpas, quem acha q isto se resume a dúzia e meia de 'virgens ofendidas', perceberá agora por que razão este plano nunca deveria ter existido?"

Descontando a parte extremamente desagradável do debate - os insultos ao realizador e à equipa por ter passado o plano, a crítica ao realizador por ter pedido desculpa, os insultos à adepta, os insultos a quem criticava e a quem apoiava -, foi muito importante ter-se falado tanto deste tema. E o Ricardo Espírito Santo soube conduzi-lo com a clareza de quem não tem dúvidas sobre os valores que defende. Infelizmente, a pressão de uma lógica de produzir espectáculos do tipo "quanto mais indecoroso, melhor" e a desculpabilização geral, de que também tivemos inúmeros exemplos neste debate, farão com que cada vez menos pessoas lhe sigam o exemplo.

Sinto-me grata ao Ricardo também por essa teimosia de não abdicar de certos valores quando à sua volta tantos encontram mil desculpas para escolher seguir por caminhos mais fáceis e economicamente compensadores.


09 agosto 2017

ética versus dietética



Não sei se o caso é de 2011 (parece que foi a data da primeira edição) ou de 2016 (data desta entrevista à Visão). Em todo o caso, e já que este é o assunto do dia nas redes sociais, cá deixo também alguns apontamentos:

- não sei qual é a dietética que a senhora pratica, mas está-lhe a fazer mal à ética;

- não conheço mais nenhum livro com um nome tão comprido: "a dieta de Auschwitz versus o pão nosso de cada dia" - mais um bocadinho, e escrevia na capa o primeiro capítulo inteiro;


- se me permitem humor negro, à boleia desta estupidez oportunista: aquela história que ela conta de ter estado em Luanda em 75, e ter ido para a maternidade debaixo de uma chuva de balas e de granadas, inspira-me para o título do seu próximo livro - "fitness na guerra civil versus vida sedentária na paz"...

De resto: preciso de um garrafão de 5 l cheio de pimenta, para pôr na língua, por causa das palavras feias que larguei enquanto ia lendo a entrevista.

(Ah, e diz que é judia por parte da mãe. Até parece aquela anedota do menino que ia com a avó cega pela rua e lhe dizia "há aqui uma poça de água - salta, avó!", e a avó saltava. Um homem que ia a passar e viu que não havia água nenhuma ralhou com ele, e o menino respondeu "a avó é minha, faço com ela o que me apetecer!")

isto agora é eclipses da lua uns atrás dos outros, ou quê?

Ontem o eclipse no meu terraço foi assim:


Em suma: tenho de arranjar maneira de cortar aquela árvore, que me está a estragar o show da lua cheia...
De caminho, dou também destino às nuvens, que ontem também contribuíram para estragar a festa:



Mas, como diz o povo, não há mal que sempre dure, talicoisa, e portanto:
1. Ao fim de alguns minutos, a lua apareceu exuberante e nua.
2. Prometo que tão depressa não volto a publicar aqui fotos manhosas da lua cheia (ou vazia, ou seja lá como for) (ah, mas aviso já que daqui a 10 dias posso muito bem aparecer com fotos do eclipse do sol em Oregon) (ou até antes disso, e aqui em Berlim, se o céu ficar coberto...)





08 agosto 2017

a perseguição a Trump

Há algum tempo que me sinto incomodada pelo modo como a comunicação social persegue Trump. Não falo das notícias sérias, que são indispensáveis, mas de um gozo especial em fazer notícias mordazes a propósito de detalhes insignificantes, passar imagens em que ele aparece muito desfavorecido, chafurdar em lamas antigas para encontrar algo com que o provocar.

Esta manhã, por exemplo, na newsletter diária do Spiegel, um dos responsáveis da revista falava assim a propósito das férias de Trump:

Dantes, quando Donald Trump ainda não era presidente, quando ainda nenhum conselheiro especial se lhe colara aos calcanhares e não era atormentado diariamente com indiscrições da Casa Branca - nesse tempo bendito Trump era de opinião de que fazer férias era coisa de fracotes. "Nice work ethic", tuitou ele, quando Barack Obama no Verão de 2011 saiu para 10 dias de férias em Martha's Vineyard. 
Desde que se tornou presidente, não há nada que mais gosto a Trump que escapar-se ao fim-de-semana para a Florida. E no que diz respeito às férias de Verão, de repente mudou de opinião e já não quer quebrar com a tradição do seu antecessor. Desde a sexta-feira passada está num clube de golfe em New Jersey, para umas férias de 17 dias. "Se uma pessoa não tem gosto pelo trabalho, é porque está no lugar errado", disse Trump há alguns anos, a propósito do tema férias, numa altura em que era ainda um feliz empresário de imobiliário nova-iorquino. Talvez por estes dias tenha vagar para reflectir de novo sobre esta frase.

Qual é a necessidade de falar de Trump nestes termos? Aliás: isto que está aqui dito é sequer relevante?

Esta perseguição  - exagerada, fora de foco, impiedosa e avessa a regras elementares de fairness - a um político eleito tem efeitos desastrosos: alimenta o ressentimento daqueles a quem Clinton chamou "deploráveis", dá-lhes novas razões para a escolha que fizeram, aumenta ainda mais o fosso entre "eles" e "nós" e reforça a ideia de uma imprensa vendida aos interesses "deles". Ou seja: uma imprensa na qual não se pode confiar.

Não é esse o caminho para melhorar o funcionamento do sistema democrático. Precisamos de uma imprensa imparcial e concentrada no que é realmente importante, deixando para os programas satíricos os materiais de fait divers e a ridicularização dos políticos.

 


eclipse lunar à minha moda


 (hihihi)

Aqui a inteligência rara esqueceu-se que ontem havia eclipse lunar. 
 
Mas fotografei na mesma: estávamos a jantar no terraço quando a lua começou a subir, e estava lindíssima. Foi mesmo no fim do eclipse, sobrou apenas uma sombra minúscula no lado. Se é que não estou a imaginar coisas.



"transexual"

Na empresa onde trabalhei nos anos 90 havia um colega que se vestia como um homem, mas com adereços femininos: o cabelo comprido apanhado em rabo-de-cavalo, o colar de pérolas a espreitar dentro do colarinho da camisa aberto, os sapatos luva (muito pouco comuns entre homens, na Alemanha).
Soube depois que estava a fazer todo o processo para transformar o seu corpo. Em determinado momento mudou oficialmente: deixou de ser Peter, passou a ser Hilde (até parece aquela anedota do homem chamado Manuel Merda que foi pedir para mudar o nome. Tendo em conta o caso concreto, autorizaram. E ele mudou: para António Merda), e passou a usar uns vestidos camiseiros confortáveis e elegantes.
Uma mulher que participou numa viagem de fim-de-semana do departamento contou-me que gostou imenso de conversar com a Hilde. Eu imaginava, com estranheza, a Hilde, que eu conhecera como Peter, a dormir nas camaratas femininas, a frequentar as casas de banho femininas. Precisei de algum tempo para perceber que o estranho era a Hilde ter passado tantos anos a frequentar camaratas e casas de banho masculinas.

Este fim-de-semana houve outra vez "colónia de artistas" num palácio perto da Polónia. Como de costume, no serão de sábado vimos juntos um filme, e desta vez escolheram "The Danish Girl". Dormi mal, porque a Lili do filme passou a noite a acordar-me para me lembrar a angústia de estar mal no próprio corpo e o sofrimento dos perseguidos pela sociedade.
No regresso para Berlim trouxemos uma amiga, e falámos sobre o filme. Em menos de nada o tema passou para um projecto de fazer casas de banho públicas com três categorias: homem/mulher/transexuais. Ela dizia que isso é caríssimo e que há outros problemas mais prioritários. Eu argumentava que há uma maneira bem mais fácil de resolver esse problema (que não atinge muitas pessoas, mas as faz sofrer muito): mudar as placas das casas de banho - em vez de homem/mulher, passa a ser com urinol/sem urinol. Ela retorquia que gosta de ter uma certa privacidade na casa de banho, e não haver nenhum homem por perto quando está a dar um retoque na maquilhagem. Disse que se sentia devassada.
Foi então que me lembrei da Hilde, que teve a sua vida devassada até aos trinta anos: permanentemente invadida, vigiada, criticada. Na casa de banho, em casa, na rua.

--

Na Berlinale de 2017 vi dois filmes ligados a este tema. Repescando os posts que escrevi na altura:

1.
Karera ga Honki de Amu toki wa (Close-knit), de Naoko Ogigami, é um filme sobre questões de transgénero para principiantes. No Japão só agora se começa a falar nestes temas, pelo que a transexual apresentada é uma pessoa perfeita, amorosa, maravilhosa, tudo de bom.
Paciência. O cinema japonês fará o seu caminho, e daqui a uns anos apresentará transexuais normais, com direito à imperfeição dos humanos.
Close-knit é um filme doce, de uma simplicidade quase pedagógica, absolutamente encantador. Permite reduzir as questões de transgénero e homossexualidade à essência das relações: amor, respeito, empatia. E mostra como tudo pode ser simples, se aceitarmos as pessoas em vez de as tentarmos ajustar à medida dos espartilhos morais.


2.
Bones of contention, de Andrea Weiss. Um documentário sobre as atrocidades do regime franquista, em particular contra os homossexuais, e sobre o debate em curso na sociedade espanhola que opõe a necessidade de fazer o trabalho da História ao pavor de se confrontar com ela.
Partindo de Federico García Lorca - a pessoa, a sua poesia e o mistério do seu corpo desaparecido - o filme informa sobre terríveis crimes cometidos nesse período negro da História de Espanha, o modo como permaneceram muito para além da morte de Franco e o papel do silêncio no insidioso prolongamento das injustiças e das ofensas à dignidade humana.
Uma passagem particularmente curiosa é a conversa entre uma lésbica e um homossexual sobre o que é mais doloroso: a perseguição, a prisão, a tortura e os choques eléctricos para curar a homossexualidade (o que o regime fazia aos homens) ou a condição de inexistência absoluta (reservada às lésbicas - que pura e simplesmente não existiam).
Outra passagem muito interessante é quando falam de uma manifestação que organizaram. Os transexuais pediram para participar, mas a princípio os gays e as lésbicas não queriam. Depois acabaram por concordar, e os transexuais apareceram na linha da frente. Na hora em que a polícia carregou, foram os mais corajosos.
Cada um pense na razão para essa coragem. Eu vou por Brecht: "mas ninguém diz violentas / as margens que o oprimem".
 

04 agosto 2017

a surpresa dos dias

Uma pessoa tira os olhos do computador e põe-nos (assim por cima do ombro, como quem não quer a coisa) na janela, agarra na máquina fotográfica, foca acima dos telhados, e faz de conta que amanheceu em África.

Melhor dizendo: como imagina África.




I 💓 Berlin

Este Verão não tem sido fácil em Berlim. Parece que alguém lá em cima resolveu fazer aqui alguns ensaios para o dilúvio.
Quando o céu lhes cai em cima da cabeça, que fazem os berlinenses?

Divertem-se.











cu-cu




O diálogo dos instrumentos, o movimento da câmara, o sorriso da pianista.
Dúvida: será melhor ouvir apenas este momento encantador, ou a peça toda?

(o concerto completo está aqui, mas não é gratuito)


03 agosto 2017

aaai...



"Quando te der saudade de mim" - brincamos, Chico?

"Basta dar um suspiro", Chico?

* Aaaai *


"Que eu te alcanço em algum lugar".

Aaaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai.

Cá fico à espera. Até já.


cambada de inúteis

Tantos amigos no facebook, tanta amizade e tal, e nenhum é capaz de me avisar a tempo de que começou a chover e tenho de ir apanhar a roupa do estendal. Cambada de inúteis.

(Por sorte, olhei pela janela.)


com a sorte que tenho, talvez fosse boa ideia tentar o euromilhões

Há tempos atropelei um ciclista. Melhor dizendo: ele é que me atropelou a mim. Mas eu ia de carro e vi-o a dar um salto mortal à minha frente depois de me ter batido, pelo que não vou insistir nesse detalhe.

Começando pelo princípio: desci o Mehringdamm e antes de virar à direita na Bergmannstrasse parei na passadeira para deixar passar toda a gente. Depois de ter desaparecido a última bicicleta, o último carrinho de bebé, o último miúdo em bicicleta sem pedais, todos, olhei para trás e vi um ciclista que vinha muito longe. "Tenho tempo", pensei. Arranquei, e no momento seguinte o homem estava a gritar "hei!" e a fazer o tal salto mortal à frente dos meus olhos horrorizados.
Saí do carro, alarmada. "Matei um homem!", pensei. "Matei um homem!"
No momento seguinte ele levantou-se, e disse: "Desculpe, eu vinha demasiado depressa, não consegui travar!"

(Berlim tem uns quatro milhões de habitantes, e eu arranjei de atropelar o mais honesto deles todos.)

O ciclista que vinha atrás deste era neurologista. Fez-lhe um exame rápido, pareceu-lhe tudo em ordem, mas achámos melhor chamar a ambulância e a polícia. Entretanto prendi o que restava da bicicleta dele a um poste, ele quis saber do estado do carro, eu disse que não sabia e não me interessava, e repeti pela milésima vez "estou tão feliz por você estar vivo!"

A ambulância levou-o, à noite liguei-lhe e ele ficou muito surpreendido por eu me interessar pela sua saúde. Disse que estava tudo bem. Uns dias mais tarde ligou-me a perguntar se podia comprar uma bicicleta usada para substituir a estragada. Uma bicicleta usada!

(A Alemanha tem oitenta milhões de habitantes, e eu arranjei de atropelar o mais correcto deles todos.)

Passados uns dias recebi uma carta da polícia. Avisavam-me que tinham aberto um processo-crime contra mim, acusavam-me de negligência grosseira por não ter respeitado a prioridade de terceiro e ser culpada de um acidente com danos corporais.

Respondi-lhes: "Provoquei o acidente, não nego. Mas da maneira como o descrevem até parece que sou uma terrorista ao volante. Nada disso - sou apenas má em matemática: não contei com o declive do Mehringdamm, e que o ciclista podia ter desenvolvido uma velocidade superior àquela a que estou habituada no Ku'damm, onde habitualmente conduzo."

Recebi segunda carta, informando-me que o processo tinha sido arquivado. Nem sequer me pediram para pagar os 30 euros de multa por ter provocado um acidente, nem nada.



agoraphobic traveller


Jacqui Kenny sofre de agorafobia, mas percorre todo o mundo no street view do google, e publica as fotos dessas viagens no instagram.

(Sim, adivinharam: contraí mais um vício. E um projecto para dias que virão depois dos projectos que já tenho.) (Portanto: lá para 2050...)


02 agosto 2017

"overshoot day"

Overshoot day, dia da sobrecarga da terra: aquilo que usarmos do planeta a partir de hoje, e até ao fim do ano, não vai ser regenerado. De ano para ano, este limiar chega cada vez mais cedo.
Como ouvi várias vezes hoje: "estamos a viver acima das possibilidades da Terra".

Sem pensar mais de cinco minutos, faço uma lista:

O que já mudei na minha vida, para fazer a parte que me compete:
- Reduzi drasticamente o consumo de carne - não chega a 10% da quantidade de carne que costumava comer.
- Uso muito mais transportes públicos..
- Uso electricidade produzida em barragens pequenas.
- Construí uma casa muito bem isolada, que pouco precisa de aquecimento no inverno.
- Se puder ir a pé, não vou de carro.
- Faço separação de lixo, para reciclar o mais possível.
- Não compro papel de alumínio.
- Evito comprar coisas baratas que se estragam facilmente (a avó do Joachim dizia "não temos dinheiro suficiente para comprar barato" - podemos mudar para: "não temos planeta suficiente para comprar barato").
- Só ligo as máquinas da roupa ou da louça quando estão realmente cheias.

O que quero mudar:
- Comprar menores quantidades de comida, para não haver nada a estragar-se e a ser deitado fora.
- Comprar num supermercado biológico e de produtos regionais que traz as coisas a casa. Eles usam o mínimo possível de embalagem. Além disso, como os produtos só são manuseados por eles, há muito menos desperdício. Uma vez que também vendem "cestas surpresa", conseguem reduzir os restos ao mínimo. O meu problema: tenho de me organizar para fazer uma encomenda semanal, e é preciso decidir previamente tudo o que vou cozinhar nessa semana, bem como as quantidades necessárias. Tenho andado a adiar, mas um dia destes vai.

O que me está a custar mesmo muito:
- Abdicar das viagens de avião.

E vocês, como é a vossa lista de cinco minutos para ajudar a levar o overshoot day para fins de dezembro, como era há trinta anos?


"nadar"


Lembram-se? A vida dos humanos começa a #nadar, e com uma vitória de medalha de ouro (bom, às vezes é ex-aequo).
O problema é quando se sai da água e se entra na terra, e se tem de negociar com os outros phelps todos (malditos alfas!).

[Querem lá ver que assim sem pensar nem nada acabei de me habilitar ao próximo Nobel da Antropologia?...]

resposta da avó

O Pedro Farinha escreveu alguns "recados para uma avó que vai ficar com os netos alguns dias em agosto". Pergunto-me o que é que ele tem contra aquilo que quer ridicularizar. Fiquei na dúvida entre deixar que a avó lhe respondesse, ou um neto dele. Responde a avó (uma avó nascida em 1900, avó de ranchadas de netos, e só não eram mais porque naquele tempo isso era "coisa que morria muito"). Mas também é um bom exercício pensar na resposta que esta carta poderia receber daqui a 25 anos.


• A Matilde não come arroz. Diz que fica enjoada. Ainda não percebemos bem de onde vem isso, pensámos que fosse do glúten, mas ela só come arroz sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de aviário.
-- Ovos de aviário?! Que é isso?
Ela que me diga que fica enjoada, que vai ver: há-de comer o dobro, até lhe passarem os enjoos.


• Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes.
-- Ainda bem que deixaste essa comida toda. Vou dar também às jornaleiras, que este mês o dinheiro está mais escasso que de costume, e está a ser difícil ter com que lhes fazer a merenda.

• Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate.
-- Pastelaria?! Sumos de pacote?! Chocolates?! O que é isso?
E que tens tu contra a nossa Margarida, uma vaquinha tão asseada? Até lhe limpamos a corte quase todos os anos. Vais-me falar outra vez de salmonelas e brucelose? Ora! Hão-de ir beber o leite às tetas da vaca, que é assim que ele sabe melhor. E o que não mata, engorda!


• Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica.
-- Claro que só uso açúcar amarelo e só metade da dose. Tu pensas que o dinheiro cresce nas árvores?! E que te leva a pensar que faria um bolo em Agosto? A Páscoa foi em Abril. E o Natal é só em Dezembro.
Cenoura biológica?! O que é isso? Será que estás a falar dessas modernices de produtos que o eng. Sousa Veloso mostra na televisão do café? Não quero cá disso, eles hão-de comer a cenoura que o campo dá, bem estrumadinha com a bosta e o mijo da Margarida, se é boa para mim também é boa para eles.


• Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável.
-- Ainda bem. Vou guardar para o Natal.

• Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço.
-- Eles que vão ao pomar e apanhem a fruta do chão. Aqui não há criados.

• O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
-- Como, "antes de apagar a luz"?! É que nem a acendem. A luz é muito cara. Vão para a cama com as galinhas, não tenho dinheiro para vícios.

• Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço.
-- Dialogo, dialogo, mas é de pau na mão. Uma boa reguada é um grande remédio para fitas. E nada de abraços, que um homem quer-se é rijo. Ainda acaba de nervos frágeis, e a fazer porcarias com outros homens.

• O iPad é a única coisa eletrónica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.
-- Nem sei do que estás a falar, mas vejo que já esqueceste o que aprendeste em casa. Os pais é que sabem como é que se educa os filhos. Uma mãe tem sempre razão. E o pai lá está para o fazer sentir ao filho - se não for a bem, terá de ser a mal.

• Eles têm uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos velhinhos. Às vezes queixam-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso, ajude-os a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não queremos brinquedos de plástico.
-- Plástico?! O que é isso?
Brinquedos? Que os façam eles próprios, eu tenho é mais que fazer. 


• Se forem à feira e eles quiserem comprar bugigangas nos vendedores, compre-lhes uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhes um abraço.
-- Se forem à feira, é para ficarem a vender os feijões e os ovos que levo num cesto. Ou então calados e quietos ao meu lado, que é como a canalha se quer.

• Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico da irmã, não há problema.
-- Porque é que insistes tanto nessa mania dos brinquedos? Eles têm é um corpinho bom para trabalhar. Hão-me de ajudar no que for preciso: há muitas ervas daninhas para arrancar, muita erva para segar, é preciso tomar conta da vaca no pasto, é preciso lavar a roupa e ajudar-me a dobrar. Não te preocupes, falta de ocupação é que eles não vão ter.

• Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos limitar a identidade de género dos nossos filhos.
-- Era o que mais faltava! Não estamos no Carnaval. Talvez ali para as colheitas, nas rodas da eira, os deixe fazer essas palhaçadas. Mas sem exageros, que não queremos cá paneleiros na família.

• Há um saco com sabonete natural e champô à base de plantas medicinais sem aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo.
-- Então agora o sabão rosa já não te serve? Estás muito fino, a cidade estragou-te.

• Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem para a praia. São as melhores para o pH da pele deles.
-- Que tens tu agora contra os panos de linho feitos cá em casa?

• Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o Despacito. O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons para o cérebro e para a digestão.
-- Vão ouvir música, mas é a do terço. É a música que aqui se ouve à noite. São sons muito bons para o cérebro, a digestão e a alma. Na família do papa Pio XI rezava-se sempre o terço à noite, e foi assim que ele chegou tão longe.  

• Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem para cima dela.
-- Só sobem às árvores se souberem estimá-las. Da última vez partiram-me um ror de ramos, perdeu-se muita fruta.

• Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não esqueça isso. E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz.
-- Eu dou-lhes a pele a tocar na pele, mas é com bofetadas, se precisarem. É mesmo como tu dizes: a energia positiva assim passa de forma mais eficaz.

PS 1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo.
-- Estás aqui, estás também tu a levar energia positiva na pele!
PS2: Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas não use fita-cola, que isso tem plástico.
-- Frigorífico?! Plástico?! Que é isso?

para as aulas não serem tão chatas...

Para as aulas do secundário não serem tão chatas, contou-me ontem o Matthias, antes de começar a aula combinavam entre amigos palavras ou frases que cada um tinha de dizer em voz alta.

Uma vez calhou a um dos amigos ter de dizer "mas eu gosto de Lenine". Cumpriu com êxito e elegância, embrulhando a frase numa pretensa citação.

Outro dia, calhou ao Matthias a palavra "peixe". Na aula de História, a professora estava a falar de uma época em que Portugal pagava em vinho, e o luso-brincalhão atalhou: "e em peixe também!"
A professora ficou surpreendida - entre o não saber se estava a ser gozada, ou se lhe faltava alguma informação.

Fiquei a pensar naquele "para as aulas não serem tão chatas". Pensava eu que os programas eram extremamente exigentes, e que os alunos dificilmente acompanhavam, mas parece que o cérebro deles afinal dá para ainda mais.

Depois de contar a história, o Matthias rematou: a brincar, arranjámos uma maneira de estar extremamente atentos durante toda a aula.


01 agosto 2017

a propósito de Sam Shepard, que está a morrer no facebook

O Carlito Azevedo fez uma bela homenagem a Sam Shepard. Copio-a para este blogue, e destaco algumas frases do conto de Shepard, que, sem o saber, descreveu muito bem o que sentimos quando o facebook começa a multiplicar sinais de quem morreu:

"Aquela vez em Knoxville quando a gente estava se beijando no trem, aquele beijo longo, longo, que demos na despedida, e de repente o trem começou a se mover, mas eu não ia com ela, e era justamente por isso que a gente estava se despedindo, porque pensávamos que não nos veríamos por muito, muito tempo e estávamos concentrados no beijo... apenas nos beijando e beijando e de repente o trem começou a se mexer e não havia maneira de descer."


Carlito Azevedo
17 h ·
Ainda bem que a Patti Smith anda se encarregando, em livros como os belíssimos "SÓ GAROTOS" e "LINHA M", de contar a história de um tempo que, se ela não contar, depois ninguém vai acreditar que uma vez foi possível um tempo tão cheio de possíveis. Um dos grandes personagens dessa trama se foi ontem desse vale de lágrimas e risos, descansa em paz, Sam Shepard.


CONVULSÃO (conto breve de Sam Shepard)

Se ela pudesse me ver agora, estou certo de que se apaixonaria por mim, aposto o que for. Aposto o que for que sim. Como não se apaixonaria? Olha pra mim. Olha como estou. Se ela pudesse me ver assim: esperando por ela, horas antes, muito antes de ela chegar, buscando qualquer sinal ou rumor de sua presença. Ela veria como estou empolgado com nosso lance. Veria o desespero no meu peito. Se ela pudesse me ver agora, lá de longe, sem que eu soubesse que está me olhando, me veria tal como eu sou. E aí, como poderia não sentir algo por mim? Ou talvez não. Talvez isso seja... quer dizer, talvez atitudes como essa provoquem repulsa. Não sei exatamente como isso funciona, mas... talvez nasça um sentimento de repulsa quando alguém está empolgado demais... disponível demais, dependente demais. Não sei. Alguma convulsão. Não. Não, isso não. Se pudesse recordar aquela vez – quando foi? Aquela vez em Knoxville quando a gente estava se beijando no trem, aquele beijo longo, longo, que demos na despedida, e de repente o trem começou a se mover, mas eu não ia com ela, e era justo por isso que a gente estava se despedindo, porque pensávamos que não nos veríamos por muito, muito tempo e estávamos concentrados no beijo... apenas nos beijando e beijando e de repente o trem começou a se mexer e não havia maneira de descer. Árvores e casas desapareciam a toda velocidade. No final, me deixaram na estação seguinte, que ficava a muitas milhas de casa, e ali estava eu, esperando durante horas o próximo trem que me levasse de volta. Se ela pudesse me ver naquela hora, de pé, ali, esperando, estou certo, certo, de que iria me querer. Ou seja, como poderia não sentir algo... não sei. Já não sei o que é que faz com que as coisas aconteçam, essa conexão. Se é que houve alguma vez.



31 julho 2017

ataque em discoteca na Alemanha

Os factos: na noite de sábado, um curdo iraquiano que veio viver para a Alemanha em criança, há 26 anos, teve uma discussão feia com empregados da discoteca do seu cunhado, meteu-se no carro e voltou pouco depois com uma M16 de fabrico americano capaz de disparar até 800 vezes por minuto. Matou o porteiro da discoteca, e feriu gravemente três outras pessoas. A seguir, a polícia matou-o. Não se sabe aonde foi buscar aquela arma de guerra - suspeita-se que tenha sido na darknet.

A notícia que li esta manhã no site do Diário de Notícias foi escrita numa fase inicial da investigação da polícia, pelo que mencionava apenas o que se sabia nessa altura. Isto: um homem entrou numa discoteca armado, e começou a disparar sobre as pessoas. Matou uma pessoa e feriu gravemente três outras. A polícia não conhecia ainda todas as circunstâncias do crime, mas afastou a hipótese de ser um atentado fundamentalista. O homem tinha 34 anos e era de origem iraquiana.

É certo que no momento em que a notícia foi publicada a polícia já tinha afastado a hipótese de ser um atentado fundamentalista. Mas um iraquiano aos tiros na Alemanha é uma óptima notícia para vender jornais (aliás, outros sites informativos - ou "informativos", como o Correio da Manhã - tiveram também o cuidado de lembrar na mesma notícia que em Hamburgo houve um ataque terrorista com uma faca). Os comentários dos leitores não se fizeram esperar. Alguns exemplos, no Diário de Notícias:


David Mendonça Salvador leu a notícia que relatava os factos conhecidos até ao momento, e achou que lhe estavam a esconder alguma coisa, porque uma notícia que não confirma as nossas certezas só pode ser manipulação e mentira:  "A censura a que estamos sujeitos, a higienização dos factos que, irremediavelmente, nos sonega a verdade das coisas torna-nos iguais a qualquer regime faccínora. Na verdade, no que toca ao direito à verdade, a única coisa que nos separa dos fanáticos islamitas é o lado em que estamos nos actos..."

Os dois leitores seguintes optaram pela ironia amarga para se queixarem da ditadura do politicamente correcto:



Daniel Carr:"Ah! Se era de origem iraquiana, não era terrorista de certeza.

A única vantagem que vejo na actuação das Autoridades Alemãs em relação às nossas, é que o assassino morre; já não cometerá mais crimes, reinserção total."
Rui Aires: "Claro que não era terrorismo. Os iranianos lá são pessoas para terrorismo. Mas que xenófobos racistas. Trata-se certamente de um jovem apenas a precisar de integração multicultural. Ele que procure pela Dona Merkel. Ela ajuda-o." (Enganou-se um bocado na identificação do culpado alemão. Em 1991, quando este iraquiano veio para a Alemanha, o chanceler era Helmut Kohl.)

Por sua vez, Manuel Mariante aflige-se com as questões da natalidade na Europa: "Os invasores, perdão, os migrantes islâmicos não vem para se adaptar ao nosso modo de vida, mas sim para nos subjugar a longo prazo. Vejam a desmesurada natalidade deles!"
Talvez Manuel Mariante ficasse mais descansado se soubesse que as "invasoras islâmicas", mal conquistam um bom nível de escolaridade e desafogo financeiro, passam a ter tão poucos filhos como as alemãs. A solução é relativamente simples: integração. Infelizmente, o leitor Rui Aires não concorda. Provavelmente tem uma solução mais fácil: desconfiar de tudo e de todos, expulsar todos os estrangeiros, fechar a Europa por trás de um muro mais intransponível que o de Berlim. 

Por sorte o leitor Augusto Ribeiro sabe explicar uma componente importante do problema: "Andam a criar cobras e depois queixam-se se estas mordem..."
Estará com certeza a falar dos comentadores anteriores que, com a coragem inabalável dos que desafiam o politicamente correcto, espalham um discurso de ódio que envenena a coexistência.

Vejamos: árabe ou muçulmano não é sinónimo de terrorista. Nem sequer de terrorista potencial. Do mesmo modo que "homem português" não é sinónimo de violência doméstica e perigo de vida para a sua companheira. Se sabemos ver a diferença quando se trata dos nossos, porque simplificamos tanto quando se trata de outros?


O fosso não é entre nós e os árabes ou muçulmanos, ou entre nacionais e estrangeiros, ou entre europeus e não europeus. O fosso é entre a gente de bem e a gente de mal. A esmagadora maioria dos árabes/muçulmanos que vivem na Alemanha são gente de bem. 

É isso que os comentadores desta notícia têm muita dificuldade em entender.


Talvez compreendessem melhor se vissem esta cena que se passou a seguir ao ataque com faca em Hamburgo. Vários homens impedem o atacante, ainda armado, de fugir:




Os homens vivem na Alemanha e são, respectivamente: afegão, tunisino, egípcio e turco.
 

Gente de bem.



30 julho 2017

atrás de mim virá...

O TAZ remata um artigo sobre "The Mooch" dizendo que Scaramucci  conseguiu, no espaço de uma semana, transformar a imagem de um tresloucado Sean Spicer num tipo civilizado e razoável. Não é qualquer um que consegue tal façanha.

Se não se estivesse a passar na realidade, e na casa do presidente do país mais poderoso do mundo, podíamos dizer que era a série cómica para acabar com todas as séries cómicas: magnífica de tão inacreditável,
irrealista, impossível



“Who leaked that to you?” he asked. I said I couldn’t give him that information. He responded by threatening to fire the entire White House communications staff. “What I’m going to do is, I will eliminate everyone in the comms team and we’ll start over,” he said. I laughed, not sure if he really believed that such a threat would convince a journalist to reveal a source. He continued to press me and complain about the staff he’s inherited in his new job. “I ask these guys not to leak anything and they can’t help themselves,” he said. “You’re an American citizen, this is a major catastrophe for the American country. So I’m asking you as an American patriot to give me a sense of who leaked it.”
(...)
“Is it an assistant to the President?” he asked. I again told him I couldn’t say. “O.K., I’m going to fire every one of them, and then you haven’t protected anybody, so the entire place will be fired over the next two weeks.”

I asked him why it was so important for the dinner to be kept a secret. Surely, I said, it would become public at some point. “I’ve asked people not to leak things for a period of time and give me a honeymoon period,” he said. “They won’t do it.” He was getting more and more worked up, and he eventually convinced himself that Priebus was my source.
“They’ll all be fired by me,” he said. “I fired one guy the other day. I have three to four people I’ll fire tomorrow. I’ll get to the person who leaked that to you. Reince Priebus—if you want to leak something—he’ll be asked to resign very shortly.” The issue, he said, was that he believed Priebus had been worried about the dinner because he hadn’t been invited. “Reince is a fucking paranoid schizophrenic, a paranoiac,” Scaramucci said.
(...)
Scaramucci said he had to get going. “Yeah, let me go, though, because I’ve gotta start tweeting some shit to make this guy crazy.”

Minutes later, he tweeted, “In light of the leak of my financial info which is a felony. I will be contacting @FBI and the @TheJusticeDept #swamp @Reince45.” With the addition of Priebus’s Twitter handle, he was making public what he had just told me: that he believed Priebus was leaking information about him. The tweet quickly went viral.
Scaramucci seemed to have second thoughts. Within two hours he deleted the original tweet and posted a new one denying that he was targeting the chief of staff. “Wrong!” he said, adding a screenshot of an Axios article that said, “Scaramucci appears to want Priebus investigated by FBI.” Scaramucci continued, “Tweet was public notice to leakers that all Sr Adm officials are helping to end illegal leaks. @Reince45.”
A few hours later, I appeared on CNN to discuss the overnight drama. As I was talking about Scaramucci, he called into the show himself and referenced our conversation. He changed his story about Priebus. Instead of saying that he was trying to expose Priebus as a leaker, he said that the reason he mentioned Priebus in his deleted tweet was because he wanted to work together with Priebus to discover the leakers.
“He’s the chief of staff, he’s responsible for understanding and uncovering and helping me do that inside the White House, which is why I put that tweet out last night,” Scaramucci said, after noting that he had talked to me Wednesday night. He then made an argument that journalists were assuming that he was accusing Priebus because they know Priebus leaks to the press.
“When I put out a tweet, and I put Reince’s name in the tweet,” he said, “they’re all making the assumption that it’s him because journalists know who the leakers are. So, if Reince wants to explain that he’s not a leaker, let him do that.”
Scaramucci then made a plea to viewers. “Let me tell you something about myself,” he said. “I am a straight shooter.” 

28 julho 2017

"Welcome in warm and sunny Berlin"

"Welcome in warm and sunny Berlin", disse o piloto do avião em tom de gozo. Estava a chover. E fresquinho.

Soube-me bem, depois do calor que tive em Lisboa, farta de andar aos ziguezagues na rua em busca de alguma sombra.

Hoje o dia acordou de sol e calor.
Triste vida: para onde quer que vá, o bom tempo vai comigo...







21 julho 2017

Mário Laginha e Pedro Burmester em Ponte de Lima - não parece, mas é sobre insularidades

O que tenho em comum com o Pedro Burmester:
- a ambos nos acontece de chamar "cidade" a Ponte de Lima
- ambos levamos com um coro de protestos, "não é cidade, é vila, ó!"
(mas os protestos que eu recebo são mais incisivos)

O que o Laginha e o Burmester têm em comum com o Simon Rattle: os concertos acabam-se-lhes demasiado depressa. Aconteceu na quarta-feira, em Ponte de Lima. O Aaron Copland: dois ou três minutos, no máximo. O João Paulo Esteves da Silva: meio minuto. Um choro feliz, do Mário Laginha: um minuto.
E assim, peça após peça. Nem sei porque me dei ao trabalho de ir de Viana a Ponte de Lima, para um concerto que praticamente acabou quando ainda mal tinha começado.

Embora tenha chovido a manhã toda e parte da tarde, o palco estava descoberto. Isso é que é fé! Fé, ou então um acordo limiano com o São Pedro. Em todo o caso, não choveu. Mas o Mário Laginha queixou-se da humidade. Foi depois de ter tocado o "Lisboa, debaixo de chuva" (isto não é uma queixa - gosto imenso das composições do João Paulo).

Também quero voltar à Sonata Breve do Laginha, que tem ali muito para saborear.

Nos dedos do Pedro Burmester, o J.S. Bach da Fantasia Cromática parecia um rapaz do nosso tempo. Tenho de averiguar o caso: não sei se o Burmester transforma Bach, ou se transforma os meus ouvidos.

A última peça do programa era La Valse, de Ravel. Tocaram muito bem, mas fiquei preocupada. É que há tempos vi a Yuja Wang a dar conta desse recado sozinha. Ora, aonde é que vamos parar, se uma jovem chinesa consegue despachar sem ajuda de ninguém uma peça que em Portugal tem de ser executada por dois homens feitos?...
(espero que tenham reparado nas reticências)

Por falar em homem feito: a última vez que ouvi o Pedro Burmester tocar ao vivo foi no Palácio da Bolsa, há uns bons trinta anos, era ele um jovem promissor. Entretanto, a sua excelência como pianista levou-o tão longe que os habitantes de Ponte de Lima nem o transformam em sarrabulho por dizer "cidade", nem nada.

--

Tanto que acontece enquanto vivo do outro lado da Europa!
Olho para o meu país em modo intermitente, como num álbum de fotografias: o Burmester no Palácio da Bolsa nos anos oitenta, o Burmester em Ponte de Lima em 2017; o Sérgio Godinho num concerto em Viana, eu a pensar que talvez seja a última vez que o vejo. Valha-me o Laginha e todos os outros portugueses que ora vejo aqui ora vejo em Berlim: desfazem a distância e transformam a percepção. A intermitência dá lugar a uma continuidade no espaço comum europeu.


12 julho 2017

diário intermitente das férias (3)

VII.
No sábado foi a vernissage em Ponte de Lima, e de lá fomos directos à festa do café da nossa aldeia. Sardinhas, um porco inteiro assado, caldo verde. Miúdas a dançar num palco (caramba, no meu tempo as miúdas daquela idade quase nem existiam no espaço público, quanto mais dançar assim desempoeiradas e cheias de graça num palco!), muitas conversas alegres, espectáculo de bombos e concertinas. Muito gostava eu de saber como é que o chefe das concertinas consegue tocar tão bem e dançar tanto ao mesmo tempo.
Por volta da meia-noite avisaram-nos: amanhã de manhã vamos à vossa casa!
É dia de ir pedir dinheiro para a festa da freguesia, formaram-se dois grupos para ir de vizinho em vizinho.
Domingo, bem cedinho, em menos de um segundo passei do sonho para dentro do vestido. Vinham a subir a nossa rua, boom-boom-booom, boom, bombombom. Por sorte andam devagar, não nos apanharam de calças de pijama na mão.
Depois seguiram para a casa do lado, e nós fomos atrás. Apanharam uma laranja, ainda em bolinha verde, da laranjeira do pátio, e andaram a jogar vólei com os bombos. A laranjinha saltava de um para o outro, booom... booom... ....laklak... boooom... ....booom... laklak, conforme caía no bombo ou no tambor.
Pelo meio muitos palavrões alegres.
Estamos no Minho. Vida boa.



11 julho 2017

diário intermitente das férias (2)

IV.
E agora largo o cantinho internet debaixo da ramada e vou fazer uma fogueira com tábuas velhas de uma pipa de vinho, para depois grelhar uns bifes que trouxe ontem do Soajo.
Foi a vizinha que me deu. Uma braçada delas, "estão impregnadas de vinho, é o melhor que há para grelhar carne", disse ela.
Depois descobri que tenho uma árvore carregadinha de ameixas amarelas e não sabia, isto até parece que sou dona de um latifúndio, mas não: sou apenas distraída.
Em todo o caso, agarrem-me, que estou com vontade de ter inveja de mim própria.


V.
Joachim não me deixou queimar as tábuas. Guardou-as para uma pintura. Agora sei o que a mulher do Picasso sofria: ela a pegar numa travessa para pôr o almocinho em cima, e ele, zás, tirava-lha da mão e pintava-a.

VI.
Um amigo que soube desta história das tábuas no facebook ofereceu-me logo uns cascos de carvalho de metro e meio para o Joachim pintar.
Coitadinho do Picasso, coitadinhos de nós: que espantosas obras perdemos todos, só porque no tempo dele não havia facebook?


10 julho 2017

diário intermitente das férias (1)

I.
Outros têm o OK Google, eu tenho os amigos do facebook a quem ponho sempre questões que começam por "A ver se o facebook serve para alguma coisa".
A mais recente:

A ver se o facebook me serve para alguma coisa (hehehe, até parece que tenho dúvidas):
há alguma maneira de eu saber qual era a peça que estavam a passar na antena 2 ontem, 7 de julho, às 11:35 da manhã? É que gostei imenso, e tentei identificar mas parecia-me uma rapsódia de inúmeras peças e autores.
Não ouvi até ao final, para ver se diziam o nome da peça no fim, porque tinha a praia à minha espera e já parecia mal fazê-la esperar tanto.
(estava neblina, o sol do meio-dia ontem ficou de vir e não veio, não se preocupem)


II.
O problema é que estou a usar internet da idade da pedra lascada. 

III.
Convidaram-me ali ao lado - no facebook - para gostar da antena 2. Gosto, pois!
É a minha companhia favorita nos "rally Portugal" habituais das férias que faço neste país.

(Quer dizer: "férias". Depois regresso a Berlim para descansar das férias que tive.) 
(Isto não é uma queixa. Longe disso.)
Gosto da música, gosto das histórias que contam tantas vezes à volta da música, gosto do António Costa Santos a esfregar sal na ferida da minha insularidade (eu em Viana, ele a contar das coisas imperdíveis em Lisboa, eu em Lisboa ele a contar das coisas imperdíveis em Ponte de Lima) e gosto dos Dias da História do Paulo Sousa Pinto. Até já pedi ao Paulo uma ajudinha para melhorar ainda mais o nível da Enciclopédia Ilustrada, mas ele, tá queto, desde que é colaborador da antena 2 já não se dá com a arraia miúda.


09 julho 2017

"nu"

Aimeudeus, que o armazém de minis do Cristovam ainda rebenta com o carregamento que vou ter de lhe mandar por causa de escrever um post com tanto atraso (1), mas o que tem de ser tem muita força, tanto o escrever com atraso como o pagamento das minis, e por isso ala que se faz tarde rumo ao meu destino.
É que estou de férias, longíssimo da internet. É certo que ao fundo do quintal tenho a internet que a vizinha me empresta, mas como tem estado de chuva a internet fica-me muito para além da minha zona de conforto. Hoje está um dia mais agradável, posso aviar de uma vez as palavras todas dos últimos oito dias. Podia, se tivesse meios para pagar todas as minis, e o Cristovam armazém para as guardar. Ainda põe o Doutor (2) a dormir ao relento - sabe-se lá se o tempo muda e dá origem a uma nova frase idiomática, que seria o contrário de "tirar o cavalinho da chuva". Tipo, sei lá, "chover na careca do Doutor". De cada vez que um enciclopedista não cumpre as regras, chove na careca do Doutor. Ou então, só para usar a palavra mágica: anda um burro nu na rua.
(Não acredito que já escrevi isto tudo e ainda não disse ao que venho!)
Passa-se que no dia em que na enciclopédia a palavra mágica era "nu", eu estava a fazer férias com a modelo do grupo de pintores berlinense do meu marido. Durante os próximos dias a nossa casa minhota vai ser uma pequena colónia de artistas, e a modelo veio uns dias antes. Perguntem-me sobre nus, sei tudo: já vi esta mulher trabalhar, e é excelente. Muito diferente da mim, naquela manhã de sábado em que o Joachim perguntou "posso pintar-te?" e eu estendi-me nua na cama a ler um livro e disse "pinta praí". Outros têm musas, o Joachim tem uma megera. Mas faço isto para bem dele, diz que o sofrimento molda o carácter. Um dia ainda me há-de agradecer, e dizer "devo-te tudo o que sou".
(Quantas piscadelas de olho terei de pôr para perceberem que estou a brincar?)
Uma amiga, que é da área da Literatura e em tudo descobre o simbolismo e o filme, perguntou-me que tal estavam a ser os dias da esposa e da modelo. Não sei. Não me ocorreu pensar nessas categorias, embora agora, depois do que ela disse, me pareça que tinha aqui material para um belo filme. Ou livro.
As "férias da esposa e da modelo" têm sido assim: ontem andei desesperada atrás da empresa Hermes que não entregava os quadros que enviámos de Berlim para a exposição em Ponte de Lima. A vernissage é já amanhã, chama-se "Nudes from Berlin", e comecei a temer que íamos mostrar as paredes nuas: "Nudes from Ponte de Lima". Depois de as caixas aparecerem respirámos fundo e fomos à feira de Barcelos (Carlos, estavam lá as tuas cruzes!) e depois fomos apanhar uma chuvada valente na minha praia favorita, a de Forte de Paçô, comprámos congro no pescador do porto de Viana e fizemos um belo arroz.
Esta manhã a modelo - que é bailarina - levantou-se e começou a fazer exercícios de sentir o corpo. Balançava a sua figura esguia até o corpo inteiro vibrar com a graça da gelatina, convidou-me para a acompanhar. Que eram apenas vinte minutos. Ora, eu já estava a sentir o corpo há que horas, uma fome desgraçada, e já estava sentada em frente ao pãozinho branco, à compota de alperce deliciosa que a vizinha me deu, ao paio de Felgueiras. Bom apetite!, disse-lhe eu, e comecei a comer.
Fomos à praia. Estava cinzenta, e fizemos uma caminhada. Vamos até Lisboa?, propus. Vamos, pois!, respondeu. Mas decidimos não ir, porque não nos apetecia atravessar os rios a nado.
Depois tomámos um longo banho. Eu virava os pés para as vagas para ver as pequenas cataratas que nasciam entre os meus dedos, e ela dançava as suas voltas de dervixe no sítio onde as ondas se arrebentavam em espuma.
Ela diz que eu liberto o seu lado mais infantil. Sinto sempre uma enorme estranheza quando me dizem o que recebem de mim, quando não faço mais que dar água sem caneco.
E depois falámos de coisas muito sérias. Ela já trabalha como modelo há 15 anos, e está farta. Aceitou fazer este trabalho por ser com este grupo, mas sente-se cada vez mais vazia e cansada, suspeita cada vez mais de quem a pinta. É que, quando começou, decidiu trabalhar da forma mais exigente: mostrar a alma ainda mais que o corpo. E sente que as pessoas não dão o devido valor ao que ela lhes oferece.
Digo-lhe a frase que ouvi a um dos pintores: é preciso saber olhar com pudor para o corpo nu. Penso na riqueza desse exercício partilhado de nudez: a modelo que revela a alma, o pintor que revela o carácter.
E agora, mudando completamente de assunto: nos lagos alemães onde se pratica o nudismo aprendi que um corpo nu pode ser a coisa menos erótica do mundo. Talvez seja porque as pessoas deixam a alma em casa, e trazem apenas o corpo para a sonolência do sol.

(1) Na Enciclopédia Ilustrada as multas são pagas em minis.
(2) Provavelmente adivinharam (como eu): "Doutor" é o nome de um garboso burro - estou em crer que é o burro mais apreciado de todos os enciclopedistas.


o triângulo das Bermudas ataca de novo

Perdi-me por aqui:





02 julho 2017

acho que estou mesmo a precisar de férias...

Aqui a inteligência rara marcou o voo para um dia e o aluguer do carro para o dia seguinte à meia-noite.

(Eu faço estas coisas para testar a amizade das pessoas.)
(Sim, as primeiras vítimas a quem pedi ajuda passaram o teste com distinção )